Joe Satriani – Unstoppable Momentum (2013)

Joe Satriani - Unstoppable Momentum

Joe Satriani raramente faz um disco ruim. Mas há tempos, desde Crystal Planet (1998), não faz um grande disco. Nos últimos anos, seus lançamentos dão mostras de certa fadiga de material: têm sempre uma ou duas grandes músicas, mas ficamos com uma sensação de deja vu durante as audições. Isso pode acontecer por desgaste natural de sua extensa carreira ou pelo constante ciclo de discos e turnês. Se contarmos os discos ao vivo, Satch não passa dois anos sem colocar no mercado um novo álbum. Por comparação, Steve Vai fez lançamentos esparsos durante um bom período, e no ano passado nos entregou um ótimo disco, The Story Of Light. Mas essa é a forma que Satriani encontrou para se expressar: discos e shows seguidos, encontrando tempo, ainda, para o Chickenfoot. Fica difícil criticar essa escolha: é um músico com ética de trabalho acima da média. E sua carreira depende disso: não pode se dar ao luxo de fazer longas pausas.

Seu novo álbum – Unstoppable Momentum – embora longe de ser brilhante, tenta fugir dos clichês, com momentos de frescor. Talvez pelo retorno de seu antigo parceiro Mike Fraser na co-produção, o álbum soa mais vigoroso e inventivo que seus mais recentes. O vigor fica claro na abertura do disco com a faixa-título: é uma típica canção de Satriani, que conhecemos desde sempre. Música com estrutura simples, que evoca sensações boas, de esperança, e ao mesmo tempo tem toques agridoces. Mas, ainda assim, a música nos prende logo de cara. E soa grande, com um refrão arrebatador.

“Can’t Go Back” mantém o clima, mas o deja vu aparece: é mais uma daquelas músicas inofensivas que o guitarrista faz. “Lies And Truths”, ao contrário, mostra o lado mais criativo do disco; mérito dos músicos e do arranjo, que fogem do convencional. É uma das melhores do disco. Empolgante, começa com um teclado enigmático, que encontra um ritmo intrincado. Destaque aqui para o primoroso trabalho do baterista Vinnie Colaiuta, com grande variação de ritmos. A música também tem outro ótimo refrão, digno dos melhores momentos do músico.

“Three Sheets to the Wind” é uma canção mid tempo típica de Satch, que também aparece em todos os seus discos. Boa música, bem montada, mas sem grandes achados. “I’ll Put a Stone on Your Cairn” é quase uma vinheta, uma balada simples cheia de teclados. “A Door Into Summer” é muito boa. Outro rock estilo Satch, com estrutura simples, calcado nas sonoridades dos anos 70. E é uma música que casa muito bem com seu título: soa como a empolgação do começo de verão, em especial a época de férias – bons tempos! É outra que tem os ingredientes básicos do conceito sonoro de Satriani, mas que ainda mantém seu poder. Poderia ser um novo clássico. “Shine on American Dreamer” é básica demais, sem grande inspiração e repetitiva. Já “Jumpin’ In” é uma música forte. Um blues rock envenenado e suingado, que poderia estar num disco do Chickenfoot – mas que bom que está aqui. Assim, Satriani pode, livremente, distribuir riffs e solos inspiradíssimos.

Veja vídeo de “A Door Into Summer”:

A seguir, temos “Jumpin’ Out”, o grande destaque do disco – que mostra que a fonte criativa de Joe Satriani está longe de secar. Um grande rock, enigmático, com certa dose de loucura, cheio de variações. A banda ajuda, com uma atuação precisa. Aqui, os músicos chutam para longe a obviedade, com diversas passagens inusitadas e intrincadas se alternando durante a música. O solo é magistral e pode ser considerado, ao lado da própria música, um dos melhores momentos da carreira do guitarrista.

“The Weight of the World” começa com um teclado que parece trilha de filme dos anos 80. É uma distração para a música de fato, que tem ritmo firme. Pode não ser uma grande canção, mas as escolhas estéticas tentam sair do usual. Já o início de “A Celebration” lembra “Highway Star”, do Deep Purple. Mas é por pouco tempo. A música, que também tem muito a ver com o título, é outra básica de Satriani. Não tem nenhuma novidade, mas termina bem o disco, com um bom clima. Unstoppable Momentum ainda demonstra, sim, certa fadiga de material. Mas tem ótimos momentos, o que indica que o músico continua com ambições e com algo a dizer – ao menos para nós, seus fãs.

Outros links geeks:
- Satriani fala, em vídeo, sobre Unstoppable Momentum: Parte 1, Parte 2 e Parte 3.
- Tungcast #018: Joe Satriani
Diogo Salles entrevista Joe Satriani

2 Responses to “Joe Satriani – Unstoppable Momentum (2013)”

  1. Lucas Gomes disse:

    Rafael,

    Ótimo resenha! Vocês escrevem bem!

    Satriani é um ótimo compositor, uma fonte insecável. Isso é comprovado até por declarações de Sammy Hagar, que comprova a capacidade de Joe quando esse constrói grande parte, senão toda, melodia do Chickenfoot.

    Gosto muito de todos os álbuns, mas confesso que sempre tenho minhas preferidas e são as que geralmente entram nos sets dos shows futuros (vide Andalusia e Premonition dos dois últimos álbuns).

    Neste álbum não é diferente, existem aquelas que saem do padrão e se destacam e são exatamente as que você mostrou acima: Lies, Weight Of The World, Jump’in, Jump’out. Curto ‘Door Into Summer’, mas acho que fica meio “faixa comercial”.

    Enfim, Satch vive um eterno “Unstopabble Momentum” e ainda bem que lança discos em espaços curtos de tempo!

    Esperamos ele no Brasil… em Porto Alegre de preferência!

    Abraço!

    • Rafael Fernandes disse:

      Lucas, obrigado pelo comentário.

      Você tem razão quando diz: “Satch vive um eterno “’Unstopabble Momentum’”. Esse vai tocar até quando não puder mais.

      Dificilmente ele não virá para o Brasil – tem vindo com frequência. Aguardemos.

      Abs,

      Rafael