Yes conquista corações proggers em turnê saudosista

Mesmo sendo um progger de certa rodagem, quando vi anúncio da nova turnê do Yes no Brasil, fiquei me perguntando se valia a pena ir. Já tendo as turnês Talk (1994), Open Your Eyes (1998) e The Ladder (1999) no currículo, será que este show acrescentaria alguma coisa? Minha descrença no Yes aumentou muito de uns anos para cá, quando eles decidiram adotar vocalistas de bandas cover em sua formação. É como se a banda tivesse encarnado aquele velhão tarado e cheio da grana que se separa de sua mulher para sair à caça de mulheres mais jovens. Fiz questão de boicotar o show de 2010, mas nessa turnê eles foram mais persuasivos e criaram um apelo que falou alto ao meu coração progger: tocar três de seus melhores álbuns na íntegra. The Yes Album (1970) foi o disco desbravador, que rompeu as barreiras e colocou Yes no mapa; Close To The Edge (1972) foi seu momento mais ousado, o ápice criativo; e Going For The One (1977) foi o canto do cisne na banda nos anos 70 (e levaria 6 anos para ela renascer pelas mãos de Trevor Rabin).

Confesso que tenho um fraco por turnês conceituais desse tipo, então decidi pagar para ver, ignorando as negativas do colunista do Yahoo Régis Tadeu, que classificou o show como uma “grande roubada”. Mas logo de cara, percebo que Tadeu erra ao dizer que a banda aparece burocrática e tocando as músicas com um andamento mais lento. Ao contrário, se há algo impecável nessa turnê é a execução das músicas. Andamento, timbres, solos, tudo. Qualquer progger mais ou menos experiente sabe que num show de rock progressivo tudo gira em torno disso. Se a execução for boa e tiver intensidade, o público está ganho. A proposta da turnê era despudoradamente saudosista, então tudo o que eles tinham a fazer era honrar os 3 álbuns. Não só o objetivo foi alcançado como a banda soube presentear os geeks de plantão, colocando o nome das músicas no telão e agrupando cada álbum em três minisetlists. Ademais, o Yes nunca foi conhecido por pulos, acrobacias e o tradicional “vamos cantar junto” no palco — ainda mais agora, que a banda está envelhecida.

Aí me lembrei de duas doenças que acometem colunistas contemporâneos: 1) A necessidade de ser “ácido” para chamar a atenção e fazer um hype nas redes sociais; e 2) a mania de antecipar análises de shows através de vídeos no YouTube, onde quase tudo o que se vê ali apresenta um som sofrível, imagens tremidas e público gritando em cima das músicas. Meu diagnóstico é que Régis Tadeu apresenta sintomas claros dessas duas enfermidades. No caso específico do Yes ele apresentou um quadro agudo de “ejaculação precoce youtúbica” e teve uma recaída em seu vício pela polêmica fácil. Por isso, vou receitar ao paciente um remédio que é tiro e queda (com trocadilho): vá ao show e faça a resenha depois.

De minha parte, fui ao HSBC Brasil cheio de calos e sem grandes expectativas, mas vi um show muito bem ensaiado, enxuto e focado no repertório, sem muito espaço para autoindulgências. Nada daquelas introduções mediúnicas, versões estendidas e improvisos intermináveis, como em “Awaken” e “Starship Trooper”. Foi revigorante poder ver músicas que nunca tinha visto ao vivo, como “Close To The Edge”, “Parallels” e “Perpetual Change”. Sobre os músicos, poucas novidades. Chris Squire continua monstruoso no palco. Parece um viking com seu machado em punho. Suas linhas de baixo fazem as paredes tremerem. Impõe muito respeito. Steve Howe ainda impressiona pela precisão nos solos e pela sua técnica de tocar usando a palheta junto aos dedos para dedilhar em “The Clap”. Alan White seguro e discreto, como é de seu feitio. Uma das novidades era a volta de Geoff Downes ao teclados. Mesmo criticado por alguns fãs, ele tem um papel importante nessa nova encarnação da banda, trazendo mais densidade ao som e sabendo a hora certa de sair do script, ainda que discretamente.

O ponto nevrálgico era mesmo o novo vocalista Jon Davison. Depois da saída do insípido Benoit David (convenhamos, esse foi duro de aguentar), Davison tinha a complexa missão de reproduzir esses três álbuns ao vivo. Apareceu no palco com um visual hippie, a la Woodstock ’69, remetendo ao Yes dos primórdios. A seu favor, ele tinha o vigor da juventude e, com efeito, não fugiu de nenhuma nota. Contra ele, obviamente, paira o espectro de Jon Anderson, cuja presença de palco e carisma são insuperáveis. Aí é batalha perdida e quem não conseguiu evitar comparações, deve mesmo ter se decepcionado, pois falta a Davison uma maior comunicação com o público. Quando ele não está cantando, parece perdido no palco. Mas o principal ele entregou: uma performance vocal tecnicamente perfeita. O resumo da ópera é que quem gosta do Yes clássico, aprovou.

O passado do Yes todo mundo sabe que é glorioso. Mas e o futuro? Chris Squire e Alan White foram ao programa do Ronnie Von e prometeram um novo álbum para 2014. Depois de Magnification (2001), o Yes se acomodou. Acho pouco provável que eles consigam fazer um disco que consiga cativar os fãs e, ao mesmo tempo, soar ousado. Mas convém esperar. Se até Benoit David — que é fraco ao vivo —, não fez feio em Fly From Here (2011), Jon Davison pode fazer melhor. Ao vivo ele já mostrou que dá conta. Agora resta saber se terá força para dar novo vigor à banda no estúdio.

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7 Responses to “Yes conquista corações proggers em turnê saudosista”

  1. Evallepin disse:

    Bem, gostei do seu comentário, porém, para quem conhece bastante o YES o Régis Tadeu não estava de todo errado quando falou que a banda está tocando com um andamento mais lento. Isto pôde ser percebido na música Parallels e Going For The One. Mas nada que tire o brilho do show.

  2. Adriane disse:

    Acredito que Davison fará jus ao lugar que recebeu honrosamente!

  3. Diogo Salles disse:

    Evallepin, não vi andamento mais lento em nenhuma música. Achei que eles foram bastante fiéis ao disco (inclusive quando decidiram não estender as músicas, como faziam antigamente). De qualquer maneira, o show não tem nada de roubada, como classificou o Tadeu.

    Adriane, também estou ansioso (e curioso). Oremos!

    abs
    Diogo

  4. Marcelo disse:

    Muito bem, Diogo!
    Assisti o Yes em Porto Alegre e parece que, pela tua descrição, foi o mesmo de São Paulo.
    O Jon Davison tem isso mesmo que tu descreveu: meio “apatetado” no palco, mas um cara muito simpático e bom de gogó.
    Quanto ao tal crítico, que nem vou falar o nome porque é exatamente isso que ele quer (falem bem ou falem mal, mas falem de mim!!)fico feliz de não termos por aqui – RS – críticos tão prepotentes e infelizes.
    Abraço

  5. Diogo Salles disse:

    Oi Marcelo, pelo que vi, o que mudou foi apenas a ordem das músicas dentro de cada set. Em BSB foi um pouco diferente, mas eles sempre fazem o Close to the Edge primeiro, depois o Going For The One e finalizam com Yes Album.

    O Jon Davison fez o trabalho dele, já o Régis Tadeu não fez sua lição de casa.

    abs
    Diogo

  6. Tuvuca disse:

    Vi o Yes em 99 e achei que essa era a vez de voltar – mas não deu, por motivos de força maior. Para mim (e acho que pra maioria), o Yes tem 5 discos sensacionais: esses 3, Fragile e 90125. Como esses 2 últimos sempre aparecem no set, a entrada principalmente das músicas do Going for the One é de comemorar mesmo. Gostei do Fly From Here, achei aquele vocalista mediano e esse também, mas os caras ainda têm capacidade de fazer coisa boa. Que façam, então.

  7. Diogo Salles disse:

    Tuvuca, primeiramente, obrigado por me vender seu ingresso em cima da hora.. :)

    Sobre discos, cada um faz seu ranking de uma forma. Eu classificaria o ‘Fragile’, ‘Close to the Edge’ e ’90125′ como excepcionais; e ‘Relayer’, ‘Going For The One’, ‘Yes Album’ e ‘Talk’ como muito bons.

    Achei o ‘Fly From Here’ médio. Gostei da ideia de seguir o rastro deixado em ‘Drama’, mas faltou força ao trabalho. Aos dois, aliás (cada um ao seu tempo).

    Vamos ver o que sai de novo dessa nova formação.

    abs
    Diogo