Meia-entrada: a metade do dobro

> por Francisco Del Rio

Qualquer tipo de política deveria ser analisada fundamentalmente por seus resultados, não por suas intenções. Ponto. Podemos enumerar centenas de fracassos perpetrados por políticos de qualquer orientação ideológica simplesmente por não compreenderem — ou não quererem compreender — que as leis da economia não ligam a mínima para as leis dos homens. A economia é menos como um carro, e mais como um organismo vivo. As bilhões de pequenas e grandes interações entre todos os milhões de agentes econômicos faz da economia um fenômeno orgânico, que sempre irá obedecer suas próprias leis naturais e não tomará conhecimento de malabarismos legislativos e bravatas populistas. Fossem respeitadas, essas leis nos livrariam de uma horda de comunistas de boutique.

Mas a famigerada lei da meia-entrada merece menção honrosa nesse quesito, por ser o exemplo mais gritante do quanto tais políticas “Robin Hood” simplesmente não funcionam — e como se não bastasse, acabam por gerar um efeito reverso, agravando os problemas para os quais elas foram desenhadas como solução. A intenção por trás desse artifício (excluindo, evidentemente, a motivação eleitoreira de políticos e a motivação financeira da UNE), é tão clara quanto ingênua: facilitar o acesso dos menos abastados a eventos culturais em geral. Mas e os resultados?

O primeiro efeito colateral da lei da meia-entrada é que ela dificulta o planejamento de qualquer evento ou negócio sujeito a essa regra. Dessa forma, torna-se muito mais complicado elaborar orçamentos, o que por sua vez irá acarretar em maior dificuldade para obtenção de patrocínios, agendamento de datas, reserva de locais, etc. Qualquer um que já tenha se prestado a organizar um mísero churrasco sabe do quanto é essencial ter uma mínima projeção de receita.

Isso não apenas desestimula a criação de novos eventos, como dificulta o surgimento de novas empresas neste mercado. Por disporem de menos recursos, tem menos “bala na agulha” para suportar o caos no planejamento e os prováveis problemas orçamentários decorrentes disso. Esse cenário favorece a existência de um oligopólio, deixando o mercado de shows, cinema, teatro, na mão de menos empresas, maiores e mais poderosas. E onde há menos concorrência, há maiores preços por piores serviços, pois torna-se arriscado investir na área de entretenimento de modo geral. Todos perdem.

O segundo efeito, consequência direta do primeiro, é o mais emblemático. Se você, organizador, empresário, produtor, não pode ter ideia do quanto seus clientes lhe pagarão (se X ou metade de X), só resta a você elevar o preço original do seu serviço de modo a minimizar o risco de prejuízo. E esse aumento tende a ser algo próximo de 100%. Ou seja, a metade do dobro. Basta pegarmos como exemplo o caso da última edição do Lollapalooza para entendermos o tamanho da bizarrice: nada menos que 95% do público pagou meia-entrada.

Alguns mais ingênuos, ou talvez marxistas (são quase sinônimos) que nunca tiveram o (des)prazer de tentar tocar uma empresa de qualquer setor no Brasil, utilizam aquela velha bobagem do “anti-lucro” como argumento. Mas em respeito à inteligência do leitor do Geek Musical, vou poupá-los de fazer defesas preventivas contra falácias econômicas. Além do mais, se existe algo que é absolutamente eficaz na redução de margens de lucro de qualquer produto ou serviço (e consequentemente, de seus preços ao consumidor), é a abundância de concorrência — coisa que a própria existência da lei da meia-entrada dificulta.

Outro efeito não-desejado — e este é particularmente inconveniente para aqueles que defendem essa lei como forma de “justiça social” —, é que ela é concentradora de renda. É fato incontestável que jovens de classe média e alta estudam por muito mais tempo do que um jovem de menor renda familiar. Dessa maneira, a médio e longo prazo, aqueles que menos necessitam do suposto desconto (sim, suposto, pois pagam a metade do dobro), acabam usufruindo dele por mais tempo de vida, enquanto o jovem menos abonado (caso seja honesto e não falsifique a carteirinha) logo estará pagando a entrada inteira, pelo dobro do preço que pagaria sem a famigerada lei.

O efeito concentrador de renda também acontece no outro extremo do espectro de supostos beneficiários: os idosos. Atualmente, diversos estudos socioeconômicos apontam para um incremento da renda do indivíduo na terceira idade, nas classes A e B. Ocorre que os idosos de todas as faixas de renda estão pagando a metade do dobro. Para um idoso com situação financeira confortável, pagar por uma ilusão não sai tão caro quanto para um aposentado pelo INSS. Novamente, prejudica-se quem deveria ser ajudado. Hélio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo, abordou o tema aqui e aqui.

Outra faceta bisonha dessa surreal legislação é a completa inépcia do poder público (e privado) para coibir fraudes com carteirinhas ou comprovantes estudantis falsificados. Qualquer um que esteja lendo esse texto, se já não usufruiu ilegalmente da lei da meia-entrada, com toda certeza conhece pelo menos umas cinco pessoas que o fazem. Além disso, grande parte da receita da UNE — uma entidade pela qual nem piromaníaco masoquista colocaria a mão no fogo — é fruto da emissão de carteirinhas de estudante. Tanto é que, quando as empresas passaram a ser obrigadas a aceitar um simples boleto de mensalidade como comprovante de vida estudantil, a UNE esperneou. Ora, se essa foi uma “conquista dos estudantes”, que os livrou de ter que pagar pela emissão da carteirinha, por que a entidade que se autoproclama defensora dos mesmos ficaria contrariada? Só mesmo por interesses capitalistas, algo que a UNE tanto finge abominar.

Mesmo com o pretenso aperfeiçoamento desta lei, que agora prevê uma cota limite de 40% de ingressos vendidos como meia-entrada, os efeitos nocivos não chegarão nem perto de desaparecer. Ainda que atenuados, os mesmos fatores que dificultam o planejamento e afugentam investimentos na área estarão aí. Além do mais, tal limitação não irá garantir que os que realmente necessitam do “benefício” terão acesso a ele, e sim os mais rápidos ou com melhores contatos nas empresas que comercializam as entradas (afinal, estamos no Brasil).

Se você deseja ingressos mais baratos para o seu cineminha, se deseja que jovens menos abastados também possam curtir os shows das suas bandas prediletas, se deseja que o brasileiro vá mais ao teatro, então você não deve apoiar essa legislação insólita. Você deve clamar por um livre-mercado no setor, com menores impostos, com regras claras e estáveis, livre da ingerência e do completo desrespeito às leis econômicas perpetrados pelo governo. Um lugar onde a concorrência possa florescer, aumentando a oferta, pressionando preços para baixo e a qualidade para cima.

Resumindo, a entrada é meia, mas a burrice é inteira. Não é apenas ineficaz como lei, mas também nefasta, pois prejudica quem supostamente deveria ajudar — seja diminuindo a oferta de opções culturais, seja encarecendo-as ou, pior, concentrando renda. A meia-entrada é um tiro no pé de quem já é manco. Eu diria que ela só rivaliza em ilegitimidade com a que dá àquela “máfia legalizada” do Ecad o direito de praticar os mais variados abusos, travestidos de benevolência. Mas isso já é assunto para outro texto…

3 Responses to “Meia-entrada: a metade do dobro”

  1. Bonilha disse:

    Excelente texto Chicão!

    Acredito ser impossível uma erradicação da meia-entrada, já que a UNE ia fazer um escarcéu e, levando em consideração a inteligência dos estudantes, apoiariam a entidade e nunca chegariam à conclusão de que pagam a metade do dobro.

    E é aquilo, assim como a reforma trabalhista, nenhum político se meteria a besta de mexer em algo que teria tamanho clamor popular contrário.

    Brasil, um país de trouxas metidos a espertos.

  2. Diogo Salles disse:

    Caro Bonilha, isso que você apontou é a descrição perfeita da covardia.

    De um lado, políticos têm medo de mexer no vespeiro porque não querem perder votos. Do outro, estudantes se beneficiam dessa máfia e não querem perder a boquinha. E por último, o cidadão comum, que assiste a tudo passivamente.

    abs
    Diogo

  3. Ótimo texto! Nunca tinha pensado nesse ponto de vista que a medida favorece quem tem mais grana, pois estudam mais…

    É chato ver algo que deveria ter um impacto benéfico ferrar tanto tanta gente. Sou a favor também de deixar o livre mercado regular os preços (aliás é o que tá acontecendo, a maioria dos shows “menores” vendem pista promocional/antecipada no mesmo valor da meia. É mais um jeitinho nas coisas, mas pelo menos é mais justo).

    Abs!