Now What?! – Deep Purple (2013)

Depois de 8 anos longe dos estúdios (mas não dos palcos), o Deep Purple retorna com Now What!, um título que alude aos autoquestionamentos de uma banda decana que parece já ter dado tudo o que podia ao rock e flerta com a aposentadoria. Os últimos anos não foram nada fáceis para a banda, não só pela perda de seu guru espiritual Jon Lord (morto em 2012), mas também pelo cansaço que vinha demonstrando nos palcos, suscitando debates e dividindo opiniões sobre o fim de suas atividades. Eu, Rafael Fernandes e Marcelo Soares analisamos detidamente essa questão no Tungcast especial sobre o Purple e não chegamos a uma conclusão. Mas uma boa mostra dessa fadiga está no show com orquestra gravado no festival de Montreux em 2011. Além de a banda soar apagada, Ian Gillan parecia fazer um esforço hercúleo para entregar notas que ele costumava atingir sem muito esforço. Para o fã-clube da banda, isso pode ter sido só uma noite ruim, mas para mim era um sintoma grave: quando uma das maiores vozes do rock encontra-se aos fiapos, algo precisa ser urgentemente repensado.

Debaixo dessa nuvem de desconfianças e baixas expectativas, eles resolveram seguir em frente e gravar um novo disco. Uma atitude corajosa, mas que gerou certa apreensão. E a expectativa aumenta logo na faixa de abertura. Entre acordes suaves e um clima intimista, Ian Gillan surge contemplativo, cantando pausadamente: “Time, it does not matter/ But time is all we have/ To think about, think about…” Após dois minutos de suspense, somos despertados pelo som da fúria. O velho Deep Purple renasce numa massa sonora capaz de derrubar catedrais. E o título da canção não poderia ser mais apropriado: “A Simple Song”. É o Purple fazendo o que sempre fez de melhor, usando a simplicidade para trazer o brilho individual de cada um do seus integrantes. “Blood From a Stone” é outra pérola dessa lavra. Climática ou agressiva? As duas coisas. Gillan dá o tom em meio a um teclado “jazzy”, e Steve Morse entra de sola. “Uncommon Man” possui uma daquelas introduções orquestradas e grandiosas, perfeita para shows, e poderia ter sido escolhida para abrir também o disco. Outra que certamente vai funcionar ao vivo é o primeiro single “Hell To Pay”. Com um refrão capaz de mobilizar um estádio, é séria candidata a clássico. “All The Time in The World” e “Body Line” até têm apelo radiofônico, mas não trazem grandes novidades e ficam meio deslocadas no álbum. “Vincent Price”, como sugere o título, fecha o disco como que num set de filme de terror, com atmosfera fantasmagórica e um riff pesadíssimo.

Roger Glover e Ian Paice continuam sendo o porto seguro da banda, precisos como um relógio suíço. Já Steve Morse parece mais à vontade do que nunca. Está mais melódico, e menos “fritador”, sem aquela sanha de querer se afirmar como grande virtuoso. Há de se ressaltar o dedo do produtor Bob Ezrin aí, que poliu o som da banda na medida exata, removendo os excessos e a autoindulgência. Ezrin só topou a empreitada sob a condição de a banda querer fazer um disco “sem vergonha de ser brilhante”. Além de incentivar novas abordagens, ele também trouxe de volta o conceito “ao vivo no estúdio”, que anda meio fora de moda, mas que ainda separa bandas extraordinárias de bandas ordinárias. Talvez por isso, o grande destaque do disco esteja nos teclados. Livre da sombra de Jon Lord, Don Airey perdeu o medo de arriscar. Ousou e abusou da criatividade para tirar a banda de sua zona de conforto, trazendo uma bagagem de referências musicais que vão desde Tangerine Dream (“Après Vu”), passando por Yes (“Uncommon Man” e “Weirdistan”) e chegando ao The Doors (“Blood From a Stone”). Se o Deep Purple conseguiu se libertar de algumas prisões sonoras que criou para si nos últimos anos, esse mérito é todo do produtor e do tecladista.

Outra boa notícia é que Ian Gillan soa revigorado e dá belíssimas interpretações às músicas (ouça “Out Of Hand” e entenda). E serve também como lição, porque passar quase uma década numa extenuante agenda de shows em lugares inóspitos nunca é uma boa ideia, principalmente para uma banda de sexagenários. Esperamos que tenham aprendido. Que nesta nova turnê eles sejam mais sábios na elaboração da agenda e que lancem apenas performances em alto nível, e não por obrigações contratuais ou interesses comerciais.

Ao final da audição do novo disco, me veio à cabeça uma frase dita pelo narrador da luta final do filme Rocky 6: “um velho ditado diz que todo grande campeão tem uma última grande luta guardada dentro de si”. Pois os velhinhos do Deep Purple ainda tinham um grande álbum para lançar. Vou além: Now What! é o melhor trabalho da banda desde seu retorno, no longínquo ano de 1984, com o clássico Perfect Strangers. Atenderá muito bem a ouvintes neófitos, que ainda estão tentando entender o que significa o “classic rock” (esse termo tão deturpado hoje em dia), e também não vai decepcionar ouvidos mais experimentados e exigentes. Onde quer que esteja, Jon Lord pode se orgulhar da homenagem e descansar em paz, porque aqui entre os mortais, Now What! renovou o nosso desejo de ver o Deep Purple, de novo, em mais uma turnê brasileira.

Veja também
Tungcast#051: Deep Purple (vol.1) – 1968-1976
Tungcast#052: Deep Purple (vol.2) – 1984-2012
Por que o incêndio de Santa Maria não foi o de ‘Smoke On The Water’ – por Marcelo Soares

7 Responses to “Now What?! – Deep Purple (2013)”

  1. O Ano de 2012 teve disco de músicas inéditas de Rush, Van Halen, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Aerosmith entre outros, alguns aparecendo no Grammy, nesse começo de 2013 já teve Bowie, Depeche Mode, New Kids on The Block e agora Deep Purple.
    Como se explica esse fenômeno de criatividade na terceira idade musical? Seria um evento cíclico relacionado com a astrologia? As atuais gerações de roqueiros estão pedindo a ajuda dos mestres?
    Muitas perguntas que serão respondidas no Globo Repórter dessa Sexta-Feira.

    • Diogo Salles disse:

      Gustavo, minha impressão é que o classic rock morreu para dar lugar ao rock de nicho, portanto, no futuro, não existirão futuras bandas que todos chamarão de “clássicas”.

      Quanto ao New Kids On The Block, desconheço seus trabalhos recentes, talvez eles estajam tirando uma de “Titios do Justin Bieber”… rss

      abs

  2. Então eu publico uma errata também excluindo o Depeche Mode da lista aí… para os purplemaniacs. rsrsrs

  3. Marcio Santos disse:

    Ainda não ouvi esse novo do Purple, mas vc disse que os caras não lançavam nada bom desde 1984, mas o Battle e o Purplendicular foram super legais e recolocaram os caras na mídia na minha opinião. Mas gostei do seu texto e vou buscar comprar esse novo cd deles, com certeza!!!

    • Diogo Salles disse:

      Marcio, eu achei melhor do que o Battle Rages On e o Purpendicular, mas se você discordar de mim, vai achar o NOW What?! pelo menos no mesmo nível desses dois.

      abs e boa audição
      Diogo