Rush no Hall of Fame: a vingança dos geeks musicais

Attention all planets of the solar federation: RUSH has assumed control, bitches. As preces do fãs foram ouvidas. O Rush agora faz parte do Rock n’ Roll Hall of Fame. O conclave dos rushmaníacos aconteceu no dia 18/04/2013, onde todos rezaram a missa em homenagem À Santíssima Trindade e renovaram suas esperanças. Por um bom tempo muita gente tentou desmerecer o título. Uma resposta rancorosa (e humana) diante de tamanha injustiça. O próprio Eddie Trunk passou os últimos anos cuspindo no Hall of Fame por nunca ter cogitado o Rush em suas fileiras. A verdade é que estava ficando difícil justificar tantas premiações a artistas de talento discutível (alguns medíocres) em detrimento de ícones do rock. Em seu discurso, Neil Peart deixou no ar um pouco desse sentimento irônico: “por muito tempo achamos que o Hall da Fama não era grande coisa, mas, pensando bem, até que é.”

Mas a grande questão da noite foi levantada por Dave Grohl, a quem coube a honra da indução. “Como é que o Rush foi virar uma banda cool?”, perguntou ele, retoricamente, para depois enfatizar o que todo bom rushmaníaco sentiu desde a primeira vez que ouviu a banda na vida: o Rush sempre foi cool, exatamente por não se entregar aos modismos fabricados pela mídia. “No hype, no bullshit”, disse ele. É música para músicos e apreciadores de música. Você pode não gostar, mas não tem como não respeitar. Hoje é até fácil se dizer fã da banda porque ela virou cult, mas nos tempos do glam e do grunge não havia nada mais uncool e fora de moda do que gostar de Rush (aqui fala um fã da banda desde 1991).

Mas, voltando à questão de Dave Grohl, como — ou quando — o Rush se tornou cool? Penso que não há uma data definitiva, mas acredito que essa maré virou em dois atos. O primeiro foi em 2002, com atmosfera triunfal da turnê Vapor Trails. Dizem que o ser humano só dá valor às coisas depois que as perde. Pois, após um hiato de 5 anos (onde se cogitou o fim da banda), o público percebeu o quanto o Rush era uma banda fundamental e deu a sua resposta. Se, de novo, eles não foram notícia na imprensa especializada, essa turnê mostrou que a fanbase da banda continuava ali firme e não os abandonaria nunca. Geddy Lee não se esqueceu disso em seu discurso e dedicou o prêmio “aos fãs mais apaixonados e dedicados do mundo”.

Fã de Rush é que nem barata: dá em todo lugar

O segundo ato foi em 2010, com o lançamento do filme Rush: Beyond The Lighted Stage. Ora, estava na cara. Se a mídia sempre desdenhou o Rush, o documentaristas Sam Dunn e Scot McFadyen fizeram o trabalho que toda a imprensa não se dignou a fazer durante décadas: foram ouvir das pessoas o que essa banda representava em suas vidas. Mas não qualquer pessoa. Gente influente na cultura pop como Matt Stone e Jack Black. E principalmente, gente importante no meio musical, como Kirk Hammett, Billy Corgan, Gene Simmons, Vinnie Paul, Mike Portnoy, Les Claypool, Trent Reznor e Sebastian Bach. O resultado é que toda essa turma aí se juntou aos die hard fans anônimos aqui para dizer o óbvio ululante: o Rush é o Led Zeppelin canadense. Uma banda gigantesca em valor, que deixou uma marca indelével na história do rock, influenciando e mudando a vida de milhões de pessoas. Não por acaso, o Rush é uma das bandas mais celebradas em garagens espalhadas pelo mundo, como mostrou o filme Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man).

A frase cabal é dita por Geddy Lee no final de Beyond the Lighted Stage: “outside the mainstream, we created our own stream”. Acontece que o barulho do “rushstream” começou a ecoar tão forte no mainstream que não tinha mais como ignorar. O populismo no discurso de Dave Grohl deixou claro qual era o sentimento geral. Como um verdadeiro Simón Bolívar do rock, foi dele o grito libertário que representou essa maravilhosa pressão popular em cima dos barões da indústria e dos mascates do hype. Faltou pouco para ele dizer “vocês não entendem porra nenhuma, seus merdas. Queremos Rush!” Para amplificar o clima de anarquia, o “discurso” de Alex Lifeson mostrou que ele não é apenas um talento subestimado na guitarra, mas também na comédia.

Taylor Hawkins e Dave Grohl tocaram o clássico 2112 e não economizaram elogios aos seus (e nossos) heróis

Como autênticos gentlemen canadenses, Geddy, Alex e Neil foram à cerimônia sem qualquer sentimento revanchista e aceitaram a honra, depois de décadas de total desprendimento a tudo o que os rockstars mais amam (fama, fortuna, hype, drogas, groupies, puxa-sacos…). Em 40 anos de carreira, nunca reivindicaram nada, nunca tiveram rancor, nunca apontaram culpados pelo que deu errado e nunca se deixaram levar pelo ego. E por que? Porque eles estão acima disso. Por isso eu não só ouço esses três como músicos da banda Rush, mas também como seres humanos que têm muito a nos ensinar. A mensagem está em todo lugar: nas letras das músicas, nos livros sobre a banda, nas entrevistas que eles dão, no jeito que eles encaram a música e a vida.

Mas, apesar de mais essa lição de grandeza, não posso evitar abrir uma exceção aqui… Sim, foi uma vingança saborosa para nós, geeks musicais, ver o mundo musical inteiro se ajoelhando diante d’A Santíssima Trindade. Agora a vida pode seguir normalmente e a “intelligentsia” pode continuar torcendo o nariz para o Rush, mas a partir desta data não terão mais o direito de ignorá-los.

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3 Responses to “Rush no Hall of Fame: a vingança dos geeks musicais”

  1. Rafael Evangelista disse:

    maior banda da galáxia

  2. Lucas Gomes disse:

    BOAAAA!! Não tenho muito a dizer, apenas que foi um marco na história da banda. É evidente que se os três vivessem eternamente, sempre haveria músicas novas e coisas novas a se mostrar.

    O contato com os fãs, o desprendimento de Neil diante de fãs e câmeras e o humor de Lifeson… demais!

    Sem contar as JAMS e o cover de Foo Fighters… Neil fazendo a base para Run DMC!!! Gary Clark Jr. junto de Tom Morello, Chris Cornell e Rush! Demais!

    Vida longa ao RUSH!

  3. Esse vídeo precisa ser passado nas escolas.