Solo, livro de memórias de Cesar Camargo Mariano

Biografia Cesar Camargo Mariano

O pianista, arranjador e compositor Cesar Camargo Mariano é um dos principais nomes da música brasileira. É reconhecido por seu trabalho com Elis Regina, por colaborações com incontáveis artistas, seu trabalho instrumental pioneiro no uso de computadores e sintetizadores e por marcos na música brasileira – como o disco Samambaia, seu duo com o guitarrista e violonista Helio Delmiro. Assim, seu livro de memórias – Solo – é leitura altamente recomendada para amantes da música. Como bem destacou Ignácio de Loyola Brandão na apresentação: “Todos que estão pretendendo carreira leiam esse livro. Que seja adotado em conservatórios e faculdades. Porque é um hino (perdoem-me) de amor à música. Porque exige coragem, audácia, entrega, desafios“. É, de fato, um livro que afirma seu amor e respeito à música.

Cesar tem um estilo de escrita bastante direto e fluído, além de contar muito bem os “causos” da vida. Dessa forma, é difícil largar o livro – a vontade é de terminar numa só lida. É claro que ajuda conhecer um pouco sobre música brasileira, para entender as referências e nomes citados. Mas o prazer da leitura independe disso. Ele foca na sua evolução no ofício da música e nos sucessos e percalços pelo caminho de sua carreira. Escreve sobre como começou a tocar, seu desenvolvimento, o período em que Johnny Alf viveu em sua casa e conta diversas histórias sobre bastidores de shows, trabalhos e gravações. Uma das melhores é sobre as gravações, nos EUA, do clássico álbum Elis & Tom. Mas eu não vou contar – é melhor ler.

Boa parte do livro, naturalmente, é sobre o período de longa parceria – musical e afetiva – com Elis Regina. Cesar é elegante e evita polêmicas vazias, preferindo ficar apenas com os aspectos profissionais e musicais. Um fato interessante é que alguns projetos saíram do papel graças ao investimento pessoal deles, sem nenhuma promessa nem expectativa do tal “retorno sobre o investimento”. O cenário era de alto risco e feito pela crença na qualidade do trabalho. O exemplo clássico é do espetáculo Falso Brilhante, de 1975. Os músicos investiram seu tempo e dinheiro quase integralmente e, com raras exceções, sem qualquer apoio fora dos envolvidos diretamente no projeto. Depois de muitos problemas e de um começo incerto, o espetáculo foi um sucesso. Teve lotações esgotadas de terça a domingo – durante um ano e dois meses.

Em outro momento, é mostrado como o empresário de Elis, Marcos Lázaro (falecido em 2003), passou a perna em Elis, Cesar e em outros tantos músicos. Abriram um processo contra ele que não teve qualquer retorno. O resultado foi que, naquele momento, ambos ficaram com zero de dinheiro, tendo que se mudar pra São Paulo e morar de favor na edícula nos fundos de uma casa de uma amiga da amiga de Elis. Daí, Cesar começou a compor para campanhas de publicidade para poder pagar as contas, sob protestos de Elis, que achava aquilo “prostituição”. Além disso, recebeu críticas de vários músicos por essa opção. Só que, dessa forma, Cesar conseguiu sustentar a família por um bom tempo.

A leitura desse tipo de livro também é interessante para contextualizar e desmitificar algumas questões. Uma delas é de que “naquela época” música boa tocava em todos os lugares. Isso não é verdade. Não à toa, durante todo o livro, são citados pequenos bares e casas onde os músicos tocavam músicas de estilo pouco aproveitado no mainstream da época. Por exemplo, logo começo do livro, Cesar cita o Golden Ball, casa noturna que abria espaço para, em suas palavras, “quem gostava de boa música evoluída, que não tinha lugar nas rádios”. Cesar chegou à essa casa por indicação do lendário baixista Sabá, pois era onde Johnny Alf tocava.

Solo, o livro de memórias de Cesar Camargo Mariano, tem muitas boas histórias, insights e aprendizados. É vital para quem pretende seguir carreira musical. É divertido e emocionante para quem se interessa por música, em especial a brasileira. Pelos olhos de Cesar, passamos por várias épocas da música. E é curioso: alguns parágrafos acima citei a passagem em que Cesar é criticado por buscar uma saída financeira na publicidade. Ao final do livro – e conhecendo um pouco de sua carreira – fica a sensação do quanto superficial e injusta foi essa crítica. Reiterando a afirmação do começo do texto, Cesar ama e respeita a música como poucos.

Outros links geeks:
- Ave, Cesar! - texto sobre um show de Cesar Camargo Mariano escrito por Rafael Fernandes para o Digestivo Cultural.

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