Mixtapes: é uma cilada, Bino!

> por Bruno do Amaral

Nas palavras do poeta, o amor é foda. E ele fornica também com seus gostos musicais. É por isso que as pessoas tendem a procurar músicas românticas quando estão apaixonadas ou canções de fossa quando levam um pé na bunda. Isso é o normal. O problema é quando são pessoas que amam música, como você (se está lendo isso aqui, é porque você respira música). Por isso é bom dizer: jamais eternize um amor com alguma música que você realmente gosta.

Pode parecer uma boa ideia. O cara tá amando a menina (ou outro cara – o que lhe apetecer mais) e fica numa sensação de que é para sempre. Mas é uma cilada, Bino! A probabilidade é muito maior de que não seja para sempre, então não vale a pena arriscar pegar aquela música foda e gastá-la com o seu objeto de desejo do momento. Imagina associar “Little Wing” a uma ex-namorada e nunca mais conseguir apreciar essa obra prima do Jimi Hendrix (ou na incrível versão do Stevie Ray Vaughan)?

Mas a coisa se agrava quando você associa músicas “alternativas”, no sentido de serem não tão óbvias. O geek da música tende a incorporar um John Cusack em Alta Fidelidade e se imaginar montando uma trilha sonora em uma fita cassete BASF de 90 minutos mal ajambrada, mas a realidade não é bem assim. Primeiro que dificilmente o(a) parceiro(a) vai curtir as músicas da mesma forma que você; nem todo mundo é fã do Rush e se empolga com alguma coisa que não seja “Tom Sawyer” (cumprimentos ao McGyver). Muito menos aquela incrível faixa que saiu no lado B de um single do Belle que ninguém liga.

Segundo, hoje em dia é mais provável que você envie mp3 ou uma playlist por e-mail ou alguma forma de compartilhamento na Internet, e isso já diminui muito o impacto. Terceiro, é preciso ser realista: não existe isso de “nossa música”, como nos filmes. Claro, você pode arranjar alguém que tenha um gosto exatamente com o seu, mas aí já é procurar sarna para se coçar. É bem mais provável que você vá procurar uma pessoa que tenha ao menos alguma afinidade, mas isso não significa que ele(a) veja as mesmas canções obscuras com o tesão que você sente.

Ou seja, a probabilidade é que você vai queimar cartucho música com alguém que nem vai dar o mesmo valor à pérola. E se acontecer de acabarem o relacionamento, a música estará para sempre arruinada para você, mas não para o(a) outro(a). Alguns associam até mesmo toda a carreira de um artista a um namoro ou casamento. Já pensou jamais ter que escutar Capital Inicial…? Na verdade, seria ótimo…

Ok, então faça o seguinte: atribua alguma música/álbum/banda que você acha apenas “legalzinho”, principalmente se você tem dúvidas se o amor vai vingar e virar comunhão de bens. Você pode muito bem viver sem o Kid A. Ou sem a discografia irregular da Kate Nash. Melhor ainda: sem saber de cor a letra de “Perfeita Simetria”, do Engenheiros. De nada.

6 Responses to “Mixtapes: é uma cilada, Bino!”

  1. Legal é quando uma vivente se apropria de uma música, voltando uns 15 anos no passado, eu no auge do meu headbangerismo, conheci essa menina que “queria ser hardcore mais a mãe dela não deixava”, escutando meus cds do Iron se encantou “inexplicavelmente” por Wasting Love, começou a cantarolar diariamente no mais sofisticado embromation, e profetizou: -Você nunca mais vai escutar essa música sem lembrar de mim. Bom, acho que esse comentário prova a verdade dessa declaração.

  2. Yahoo – Mordida de Amor, melhor versão brasileira ever (só que não)

  3. Diogo Salles disse:

    Gustavo, “Wasting Love” é o título bem sugestivo, não?

    Só para não deixar passar esse momento, aviso a todos que está disponível o DVD dos 20 anos do Yahoo: http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2579231/yahoo-20-anos-ao-vivo-dvd

    Não podemos deixar de perder!

  4. Bruno do Amaral disse:

    Hahahahaha, Gustavo.. Por isso que eu digo: sempre proteja sua discografia predileta. :)

  5. Você compra um pirulito e vem esse dvd de brinde.