People, Hell and Angels (2013) – Jimi Hendrix

Desde que a família de Jimi Hendrix retomou o controle de sua obra nos anos 1990, a cada triênio surge alguma novidade do “Hendrix Vault”, mesmo que re-embalada de algo já conhecido. Três anos depois de Valleys of Neptune, chega agora People, Hell and Angels para saciar a apetite dos adoradores do guitarrista mais cultuado no mundo. A exemplo do lançamento anterior, o novo disco é uma compilação de jam sessions – a maioria delas gravadas entre 1968 e 1969 no Record Plant Studios. Produzido por Janie Hendrix (irmã de Hendrix), o engenheiro de som Eddie Kramer e o historiador John McDermott, o clima de catadão é audível desde o início, com diversos músicos trazendo diversas abordagens e contextos diferentes, desde Stephen Stills ao grupo vocal Ghetto Fingers. Mitch Mitchell e Buddy Miles dividem o posto de baterista e Juma Sultan aparece tocando conga em metade das faixas.

Logo de saída, “Earth Blues”, de Elmore James, dá o tom do disco, bem orgânico. “Somewhere”, o primeiro single, segue no clima de ensaio, permitindo as experimentações de Hendrix. A terceira faixa é mais uma das várias versões existentes de “Hear My Train A Comin” – e nem que Hendrix voltasse do além conseguiria superar aquela famosa versão acústica. “Bleeding Heart” começa a cair no hermetismo, e antes que comecemos a bocejar, as coisas melhoram em “Let Me Love You”, com participação de Lonnie Youngblood nos vocais e saxofone (para quem não sabe, Hendrix tocou junto com Youngblood antes da fama, ainda como side-man). Já em “Izabella” e na instrumental “Easy Blues” o guitarrista Larry Lee entrega bons licks e possibilita a Hendrix explorar ao máximo sua liberdade. O resultado é um som mais coeso e encorpado. “Inside Out” é um híbrido instrumental de “Ezy Rider” e “Purple Haze”, mas com um andamento mais lento. “Hey Gypsy Boy” é uma variação do que se tornaria “Hey Babe”, do disco póstumo First Rays of the New Rising Sun. O melhor momento do disco é “Mojo Man”, que diz muito sobre o tipo de som que Hendrix estava buscando. Com vocais de Albert e Arthur Lee (dos Ghetto Fingers), seção de metais e Jame Booker no piano, antecipou muito do que bandas de funk e R&B fariam à exaustão nos anos 70. Um deleite de audição. “Villanova Junction Blues” encerra o disco com uma reminiscência do histórico show de Woodstock.

O saldo final é o seguinte: quando Hendrix ia ao estúdio apenas com sua banda sem um repertório definido, ficava dando voltas em torno de si mesmo, em busca de ideias que soassem originais. Algumas até soavam, mas nada que trouxesse alguma inovação ao seu som. O que fica perceptível é que quando vinha gente de fora para tocar, Hendrix se sentia desafiado, procurando encontrar um ponto de fusão entre a sua música e a dos convidados. Por essa razão, este novo lançamento supera Valleys of Neptune no quesito novidade, pois esses encontros musicais soam como a gênese do que acabaria se tornando a Band of Gypsys. Só me parece estranho tentar ranquear esse disco com notas ou estrelinhas, uma vez que sabemos que, se ele não tivesse morrido prematuramente, não lançaria essas músicas do jeito que estão. Mas entendido e ouvido como uma compilação póstuma de jams em estúdio, People, Hell and Angels dá uma boa perspectiva do lado mais experimental de Jimi Hendrix – sem, contanto, acrescentar algo ao mito.

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