Steve Vai – The Story Of Light (2012) – Faixa a Faixa

Steve Vai - The Story Of Light

Nota do autor: esse disco foi discutido no Tungcast #062: Steve Vai (vol. 02) – The Story Of Light. O texto a seguir é um complemento.

Steve Vai é um músico que pensa seus trabalhos nos mínimos detalhes. Em The Story Of Light (Real Illusions: Of A) (2012), seu mais recente lançamento, isso fica claro de novo. Assim como fica claro que ele ainda pensa um álbum como uma obra definida e completa – não apenas uma junção de músicas escolhidas a esmo. O disco é a continuação de seu registro de estúdio anterior, Real Illusions: Reflections, de 2005 – um projeto que foi pensado como trilogia.

Já na primeira audição, The Story Of Light soa fresco e vigoroso – fruto de um músico maduro, criativo e que ainda busca desafios. Ao mesmo tempo é complexo, cheio de alternativas, com muitas informações a serem desvendadas. E que tem, também, suas fraquezas. Por isso, sua absorção não se encerra em apenas uma audição. O faixa a faixa a seguir tenta esmiuçar um pouco mais esse disco.

1) “The Story of Light”: Para amantes de detalhes geeks em discos conceituais, esse título é um prato saboroso. Dentro da trama, Captain Drake Mason – o personagem principal da saga –  em dado momento escreve o livro Under It All. Esse é o título da última música do disco anterior, Real Illusions: Reflections. “The Story Of Light” é o primeiro capítulo desse livro – e é a segunda parte da música “Under It All”. Ou seja, o segundo disco da trilogia começa de onde o primeiro parou. Musicalmente, é uma música guiada por uma parede de belos acordes de guitarra, bem abertos, acompanhados por uma seção rítmica complexa. A segunda parte traz um solo longo que é uma melodia contínua, que parece não ter fim. Propositalmente não há respiro entre as frases. Mostra que Vai está em plena forma como instrumentista.

2) “Velorum”: Como dito no Tungcast específico, considero uma das melhores músicas da história de Steve Vai. Tem todos os elementos que permeiam a carreira do guitarrista: peso, influências diversas, variações rítmicas, loucuras musicais, belas melodias e surpresas. O começo é um rock mais direto, seguido de uma parte mais leve com sabores étnicos. Há uma espécie de refrão, com uma dupla de guitarras guiando as melodias. O caminho da canção é tortuoso sem ser torturante. Parece uma fábula, em que a cada momento encontramos surpresas, desafios e mudanças de rota. É a prova de que é possível contar uma história musical sem letra.

3) “John The Revelator”: Um rock pesado, cru e direto. Há uma ótima participação da cantora Beverly McClellan (que apareceu para o mundo no reality show The Voice), que faz jus ao arranjo e leva a canção a um outro nível. A música não tem nenhuma relação direta com uma religião específica. É encaixada no conceito do disco como uma reflexão sobre um deus, mas sem amarras. É uma canção tradicional dos EUA e foi baseada na versão gravada por Blind Willie Johnson – o começo da faixa de Vai tem um sample desse registro. Um canção sem frescuras.

4) “Book Of The Seven Seals“: Continuação da música anterior. Nenhum disco de Vai é lançado sem uma faixa que expanda os limites de suas idiossincrasias. “Book Of The Seven Seals” é a amostra disso em The Story Of Light. É um “rock gospel” elevado à loucura. Os coros foram realizados por um grupo de oito integrantes. Exagerada de propósito e um exemplo claro do que afirmei no Tungcast: é um disco com intenção cinematográfica. Como se o álbum tivesse a estrutura de um filme maluco tal qual Labirinto, O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus, O Labirinto do Fauno ou algo de David Lynch, em que vamos percorrendo diferentes cenários non sense, numa mistura de realidade com sonho e ilusões.

5) “Creamsicle Sunset”: Uma balada que, em princípio, pode parecer meio perdida, mas tem sua explicação. É uma espécie de “respiro” no meio do clima denso e maluco do começo do disco. Tem o estilo do Alien Love Secrets, lançamento de Vai de 1995: um arranjo simples e preciso com apenas baixo, bateria e guitarra. Não tem a intensidade e efervescência das melhores do álbum, mas é uma bela canção.

6) “Gravity Storm”: Outra música bastante pesada. Steve Vai já afirmou que os efeitos do começo não foram feitos com alavanca – são bends executados com os dedos. Outra prova de como o guitarrista pode expressar diferentes sensações com suas músicas: aqui ficamos tensos, sem saber para onde ir. Mas, ao mesmo tempo, é um rock vigoroso que se resolve bem – além de ter solos insanos e arranjo intrincado. Também é uma amostra de como a guitarra pode se expandir. A forma como Vai coloca os bends pode não ser absolutamente nova, mas é diferente do que estamos acostumados a ouvir. Parece que eles aparecem de lugares que não sabemos.

7) “Mullach a’ tSí“: Todas faixas número sete nos discos de Steve Vai são baladas intensas, cercadas de mística – embora o guitarrista afirme que não há nenhum significado muito especial no número sete. Adivinhem que número é, por exemplo, “For The Love Of God” – seu maior sucesso? “Mullach a’ tSí” é a versão de Vai para uma canção de ninar irlandesa. Por isso, é uma faixa bastante simples e leve. Assim como o arranjo, só de violões, guitarra e uma harpa. O destaque é a relação do guitarrista com seu instrumento. Ele tem uma rara capacidade de se expressar com a guitarra, como se fosse uma extensão de seu corpo – ou de sua própria voz. É uma interpretação cheia de dinâmicas e sutilezas – com destaque para o final, uma união do pedal wha wha e o botão de volume, que dá um efeito diferente.

8 ) “The Moon And I“: Por ter sido gravada ao vivo numa passagem de som, soa “magra” e se apequena quando incluída no meio dos timbres quentes e bem elaborados das músicas anteriores. Musicalmente também não está no nível das outras. Mas sua inclusão no disco é ao menos explicável. É uma canção pessoal e especial, que Vai achava que devia estar presente num disco, e não apenas num lançamento digital (o que ocorreu há alguns anos via Vaitunes). É uma canção inspirada numa época profunda na vida do guitarrista, quando ele tinha entre 20 e 21 anos e sofreu de depressão, a ponto de pensar em suicídio – mesmo supostamente tendo uma ótima vida (mais no Tungcast #062).

9) “Weeping China Doll“: Além de ser o nome da música, é nome de uma flor. Steve Vai conta que sua esposa plantou essa espécie no jardim de sua casa. Seus botões dispostos numa cerca pareciam notas num pentagrama. Ele escreveu num papel e daí começaram a surgir os riffs da música, que é densa, lindamente dramática, por vezes gerando perto de incômodo no ouvinte, mas sempre apresentando ótimas soluções melódicas. E o clima da música faz sentido com sua proposta no conceito do disco, já que, segundo Vai, é sobre uma mulher com intensa agonia mental. É um dos grandes destaques do disco e da carreira do músico, ao lado de “Velorum”.

10) “Racing The World”: Novamente, depois de uma música intensa, uma mais leve – com um bom clima, até meio anos 80. É um rock despretensioso e direto. A sonoridade lembra algo entre o Alien Love Secrets e o The Ultra Zone. Assim como “Creamsicle Sunset”, “No More Amsterdam” e “Sunshine Rain Drops” (ver abaixo) é uma boa música, mas destoa se comparada às principais dos disco.

11) “No More Amsterdam”: Uma balada quase-pop com letra de Aimee Mann – que também duela nos vocais com Steve Vai. A letra não tem relação direta com o conceito do disco – nem foi feita com essa intenção. Também não tem significado óbvio. Para a trama, pode ser entendida de forma indireta. É uma balada nos termos de Steve Vai: embora tenha estrutura simples, as melodias e harmonias são meio “tortas”. É uma boa música e, por exigir um baixo alcance vocal, Steve Vai não faz feio. Sua voz casa bem com a de Aimee Mann. Não é uma música brilhante, mas é uma boa audição – com um belo refrão. Mas, de certa forma, faz mais sentido ouvida fora do contexto do disco.

12) “Sunshine Electric Raindrops“: Outro rock mais direto e leve. Um encerramento relaxado, depois de um disco tão denso. Um estilo próximo das músicas dos guitar heroes dos anos 80 e 90, com ares de Joe Satriani – e isso é um elogio. Repito o que disse acima: muito boa música, mas como outras, fica alguns degraus abaixo das melhores músicas e até do conceito do álbum. Apesar disso, o saldo de The Story Of Light é muito positivo. Que venha o final da trilogia, que começou em 2005 com Real Illusions: Reflections – e sabe-se lá quando vai terminar.

Outros links geeks:
- Tungcast #061 – Steve Vai (vol. 01)
- Tungcast #062 – Steve Vai (vol. 02) – The Story Of Light
- Tungcast #007 – Discos subestimados (parte 1)

Comments are closed.