Os sertanejos e a muleta do preconceito

Há alguns meses saiu uma crítica do jornalista Joe Bishop no periódico inglês The Guardian, desancando o sucesso “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló. Dentre outras coisas, Bishop disse que a canção soa “antiquada” por usar acordeão e que essa é a “prova de que europeus e sul-americanos não são confiáveis quando se trata de música pop”. Publicada a matéria, seguiu-se o roteiro conhecido. Correram atrás de Michel Teló para que ele comentasse, mas nem era preciso. Teló se escorou na resposta-padrão do brasileiro para rebater qualquer crítica: disse que a opinião do inglês foi “bastante preconceituosa” e que, se o jornalista conhecesse melhor a nossa cultura, pensaria diferente.

Ah, a velha muleta do preconceito… E reparem que Teló, esperto, ainda faz um aceno ao jornalista para conhecer nosso cancioneiro popular. Insinua um suposto gesto de grandeza, mas na realidade não passa de um truque retórico — extremamente eficaz, por sinal — que apela para o nosso nacionalismo mais atávico. Sertanejos em geral costumam repudiar a diversidade de opiniões e se negam a aceitar que os ouvidos mais exigentes simplesmente odeiem sua música. Fazer críticas, para eles, não é algo aceitável. Para Michel Teló, Zezé Di Camargo e tantos outros artistas do mainstream brasileiro, a diversidade é uma via de mão única. Eles podem lançar o que bem entenderem, mas nós estamos todos proibidos de criticar, sob a sombra do rótulo de “preconceituoso”…

Direto ao ponto: para ouvintes mais sofisticados, “Ai Se Eu Te Pego” é sífilis. Artistas como Teló e Luan Santana não fazem música, no sentido maior da palavra. É apenas um fast-food sonoro, que vende uma felicidade enlatada para o consumo fugaz. Em outras palavras, entretenimento puro. Achei, inclusive, que o jornalista do Guardian pegou leve. É muita pretensão desse pessoal querer ser tratado como alta cultura nos jornais. Pode-se criticar ou elogiar artistas como Criolo, Maria Rita ou Marcelo D2, mas há ali um lado autoral, uma proposta artística a ser debatida, algo que inexiste em gêneros como sertanejo e axé, que servem apenas para movimentar a indústria de micaretas e rodeios.

Alguns podem argumentar que basta não ouvir tais artistas. Mas como, se eles estão por toda a parte? Nas ruas, nas festas, na internet, nas redes sociais, nas TVs, nas rádios… Por mais que tentemos ignorar, essa porcaria sempre irá nos pegar (com o perdão do trocadilho ruim). E não me venham com essa defesa cansada de “você despreza a nossa cultura do sertão”, porque esse sertanejo pop e seus congêneres “universitários” não representam o sertão. Primeiro porque são urbanos até a medula. Segundo porque são arrogantes ao acharem que falam em nome de todos. E terceiro porque não passam de uma arrumação venal de música pop com arranjos toscos, timbres popularescos e letras estúpidas. Portanto, os telós da vida deveriam agradecer — isso sim — pelas pouquíssimas críticas que recebem dessa nossa mídia ainda presa em seu provincianismo e covarde demais para dizer o que realmente pensa.

Aliás, há de se ressaltar também a falta de coragem para o debate por parte de nossa “intelligentsia”, que relativiza tudo em nome da “democratização cultural”. Esquecem que a democratização também pressupõe a crítica livre. Gostar ou odiar é do jogo. É um direito tanto de quem produz quanto de quem consome arte, música ou literatura. Arte é isso. É se arriscar, é tomar partido, é estar aberto a críticas — algo que os artistas brasileiros ainda estão longe de compreender. Confrontar diferentes linhas de pensamento contribui para qualquer discussão, mas no Brasil virou praxe desautorizar a crítica para se acomodar na unanimidade.

Existe, sim, uma diferença clara entre o que é música do que o que é mero entretenimento. Qualquer tentativa de misturar as estações é puro marketing. Uns se aproveitam da nossa cultura da vitimização, outros apelam para baixo nacionalismo do amor à pátria, mas o resultado é um só: geram um público apático e que se diz “eclético” apenas para aderir ao consenso. Acontece que em 90% das vezes em que a palavra “preconceito” é dita numa discussão musical, pode ter certeza de que não há preconceito algum. É somente uma tentativa esperta de patrulhar uma crítica e encerrar o debate. Toda vez que virem artistas escorados na muleta do preconceito, tenham em mente isto: essa gente não é vítima. Ao contrário. É malandra por usar o discurso da diversidade e atribuírem a si mesmos uma relevância artística e cultural que não possuem. E faturar alto com isso, claro, porque quanto mais “vítima” o cara for, mais ele vai vender.

Se você gosta só de música, não precisa ter vergonha de dizer que o novo “hit” do momento é um lixo. Você tem todo o direito de dizer o que pensa — desde que observe a regra de ouro: seu ataque deve ser direcionado apenas à “obra” em questão, e não à pessoa que a cometeu.

15 Responses to “Os sertanejos e a muleta do preconceito”

  1. William disse:

    É muito fácil esses “artistas” se defenderem vendendo seu trabalho como nacional, incompreendido por criticos afirmando que nao valorizam o que é produzido no Brasil para defenderem o que é feito la fora. O que nao é verdade, afinal, todo critico decente acha bons trabalhos no Brasil. Assim como quem critica trabalhos brasileiros cantados em ingles.

    Além disso, essas “musicas” sao constragedoras, pela letra, pela parte instrumental, enfim e tudo. E nao é a toa que nao resistem ao tempo. Nao duram nem um ano, porque de fato, sao modinhas.

    Pior do que sertanejo universitarios, só as milhoes de musicas “tchu tcha tchu”, que nem sao musicas… Nao tem melodia, nao tem harmonia, nao tem composição, apenas “ritmo”, mais precario que qualquer musica primitiva, como as de musicas tribais.

  2. Bruno do Amaral disse:

    Tudo bem, concordo com tudo. Mas não entendi essa de que usar o acordeão torna uma música antiquada. Não faz sentido pq é um instrumento típico da música brasileira mesmo, como o forró. Sei lá, achei só isso nexo.

    • Diogo Salles disse:

      Bruno, o acordeão é muito usado em músicas às quais não há muitas variações. E são músicas de alcance regional. Teló saiu pela tangente e atingiu o mainstream apenas porque o Cristiano Ronaldo “bombou” aquele vídeo na internet. Mas é claro que muita gente de fora não responde da mesma forma que aqui. Nem poderia.

      Mas o que pegou foi o uso malandro do acordeão em “Ai Se eu te Pego”, que não apenas raspou qualquer regionalismo do som como misturou com um pop muito, muito ruim.

      abs
      Diogo

      • Bruno do Amaral disse:

        Diogo, eu concordo que a intenção do Teló foi essa (aliás, não muito malandro, já que todo sertanejo tem usado). Mas ainda não acho que o instrumento pode ser rebaixado assim, categorizado como antiquado por nada.

        Gustavo Sampaio, entendo o que você fala. Concordo que é preciso bom gosto para incorporar harmônica, acordeão e sanfona e que muitos usam isso pelo efeito estético, mas ainda não acho que dá para desconsiderar o instrumento pelo mal uso de alguns. É como fizeram com os teclados e sintetizadores no pós-anos 80, quando ficaram estigmatizados até voltarem à moda ainda nos anos 90 e, principalmente, nos anos 2000.

  3. O problema com o acordeão é a dinâmica limitada do instrumento, que funciona como uma opção de harmonia assim como o órgão de tubo, hoje em dia com sintetizadores atingindo a perfeição na simulção desses sons, eles se tornam “antiquados”, mas acho que funciona melhor na parte estética (beijo pro Arcade Fire)

  4. Diogo Salles disse:

    Bruno, o que acho que o Gustavo quis dizer (e vou concordar com ele) é sobre o uso que é feito do acordeão em 99% das músicas que fazem sucesso aqui no Brasil.

    Sua analogia com o teclados dos anos 80 é muito boa, mas lá tinha muita coisa bacana sendo feito, apesar de todo o lixo que foi produzido junto.

    abs
    DIogo

  5. CESAR disse:

    SERÁ QUE É SÓ O SERTANEJO QUE TEM PROBLEMAS? OS DEMAIS NÃO? DESCULPE MAS DÁ A IMPRESSÃO QUE O QUE PRESTA É SOMENTE O QUE GIRA EM TORNO DOS SEUS GOSTOS MUSICAIS, EXPLIQUE-ME DIREITO PORQUE DÁ A IMPRESSÃO DE QUE O MUNDO CULTURAL GIRA EM TORNO SOMENTE DO QUE LHES AGRADA…SERÁ QUE O MUNDO SERTANEJO TAMBÉM NÃO TEM SEUS BONS ARTISTAS MESMO QUE VOCÊS NÃO GOSTEM, ASSIM O SAMBA, O CLÁSSICO, O ROCK E OS DEMAIS? PARECE MATÉRIA TENDENCIOSA…DESCULPA MAS DÁ ESSA IMPRESSÃO. ME EXPLIQUE DIREITO POR FAVOR.

  6. Diogo Salles disse:

    Cesar, se você acompanha os posts e podcasts por aqui, já deve ter notado que nós criticamos artistas e bandas de qualquer gênero.

    O vitimismo é um problema recorrente dos gêneros musicais (e dos proprios músicos) aqui no Brasil, que incluem o axé, tecnobrega e outros. Mas o cume dessa montanha de simplificações e vitimizações é o sertanejo, me desculpe.

    Já seu comentário sobre minha “matéria tendenciosa”, nem merece resposta, pois você mostra que confunde totalmente o jornalismo informativo com o opinativo.

    abs
    Diogo

    • CESAR disse:

      DESCULPE EU ESTOU FAZENDO PERGUNTAS QUERENDO TIRAR MINHAS DÚVIDAS E NÃO OPINANDO OU RESPONDENDO,COM TANTA MATÉRIA SOBRE O PRECONCEITO MUSICAL CONFUNDE MUITO…AGORA O QUE EU QUERO SABER É SOBRE O TRABALHO SÉRIO DE ARTISTAS POPULARES, INCLUSIVE DO SERTANEJO NEM TODO ARTISTA SERTANEJO É UM MICHEL TELÓ…ISSO QUE QUERO UMA EXPLICAÇÃO, POIS ACHEI UM POUCO RADICAL E JÁ FIZ A MESMA PERGUNTA A UM MAESTRO QUE ESTUDOU VÁRIOS ANOS DE CONSERVATÓRIO MUSICAL E SEGUNDO ELE O QUE FOGE DA MÚSICA DELE, OU SEJA,CLÁSSICA É TUDO SIMPLIFICAÇÃO, POR ISSO A MINHA DÚVIDA. ME DESCULPE SE NÃO ESTOU COLOCANDO BEM MINHA DÚVIDA, MAS TAMBÉM ACHEI RADICALISMO DA PARTE DELE, MAS ELE PORÉM TEM FORMAÇÃO MUSICAL E ANOS DE EXPERIÊNCIA EM REGÊNCIA…AGORA NÃO SEI, SINCERAMENTE NÃO CONCORDO COM ELE E NEM COM CONCEITOS RADICAIS DE NENHUM CRÍTICO, POIS QUEM ESTÁ DE POSSE DA “VERDADE”? ESTOU CONFUSO, SE PUDER ME EXPLIQUE MELHOR SOBRE VITIMISMO. OBRIGADO.

  7. Diogo Salles disse:

    Cesar, vamos la:

    Vitimismo é usar o argumento do preconceito como muleta para rebater qualquer crítica. Artistas populares apelam bastante para clichês e simplificações em sua música justamente para conquistar espaço na mídia e vender mais. Isso os faz sucesso de público, mas não de crítica, pois ao usar dessas simplificações, enfraquece suas composições. Resumindo: Teló e Luan Santana fazem música para quem não quer OUVIR música, e sim pra quem só quer sacolejar o corpo ao som de um refrão estúpido. Como estratégia de mercado, é brilhante, mas como discussão musical, é nulo.

    Não me refiro ao sertanejo como um todo e sim esse sertanejo mainstream, com misturas de pop, romântico e essa birosca chamada “universitário”. São subgêneros do verdadeiro sertanejo, que é o Sergio Reis, Almir Sater, Pena Branca & Xavantinho (detalhe: desses, eu só gosto do Almir Sater, mas respeito todos).

    Sobre os radicais eruditos, este sempre foram uns chatos, exatamente pelo radicalismo, de dizer “não pode isso, não pode aquilo” ou “bons somos nós, o resto é ruim”. Posam de maiorais e esfregam sua sabedoria musical na cara dos outros, mas são incapazes de entender o que fez um Miles Davis, por exemplo, que subverteu todos os conceitos do jazz. Esses mais parecem adeptos de uma seita ortodoxa, portanto renunciam o debate musical para viverem em suas certezas absolutas.

    abs
    Diogo

  8. CESAR disse:

    Obrigado, agora sim você me respondeu a minha dúvida, pois pensei que estivesse generalizando.Desculpe alguma coisa e Uma ótima semana.

  9. Eduardo disse:

    Ta de brincadeira? O acordeon é um dos instrumentos mais completos que temos no mundo!!! procure mais informações antes de escrever, Respeito todo tipo de formadores de opiniões, desde que tenham conhecimento de causa.