Por que o incêndio de Santa Maria não foi como o de Smoke on the Water

O Brasil acompanhou consternado a tragédia ocorrida em Santa Maria (RS), que matou 239 pessoas, até o momento. Para quem vê o mundo através da música, impossível não traçar uma linha paralela entre esse triste episódio e o que ocorreu no cassino de Montreaux em 1971 – fato que serviu de inspiração para o clássico “Smoke On The Water”, do Deep Purple. Conversando com o jornalista Marcelo Soares – que gravou com a gente os dois Tungcasts sobre a banda –, percebemos que ele também viu semelhanças entre os dois incêndios a princípio, mas depois constatou as diferenças quando esteve lá em Santa Maria cobrindo a tragédia pela Folha de S.Paulo. Como o Marcelo é um purplemaníaco incurável e apurou os fatos de perto, natural que o convidássemos para escrever um post especial para o Geek Musical. Diferenças à parte, uma coisa é certa: com o “stupid with a flare gun” em Santa Maria, e agora com o “Fireball” na Rússia, pode-se dizer que, por enquanto, só deu Deep Purple em 2013.

> por Marcelo Soares

Acordei em Porto Alegre, no dia 27 de janeiro, com doze telefonemas do meu chefe. Queria que eu fosse para Santa Maria ajudar a cobrir a tragédia de uma boate que pegou fogo. Ao ver as cenas do resgate da boate na TV, antes de sair, ouvi dizerem que o fogo havia começado quando o cantor da banda de “Tchê Music” Gurizada Fandangueira acendeu um sinalizador no palco. A voz de Ian Gillan ecoou no meu ouvido:

“…but some stupid with a flare gun burned the place to the ground.”

Santa Maria não tem um lago como o lago Geneva, então a fumaça não se espalhou sobre a água. A boate Kiss também não tinha um Claude Nobs (saudoso criador do lendário Festival de Jazz de Montreux) para puxar a gurizada do chão antes que o pior acontecesse. Tchê music, convenhamos, também está longe de ser comparável à música de Frank Zappa e os Mothers of Invention – ainda que as primeiras tentativas de incorporar o som de guitarras à música tradicional gaúcha tenham sido feitas lá no começo dos anos 80 por fãs de Zappa em bandas como a Saracura.

"Funky Claude was running in and out/ pulling kids off the ground"

O resultado da comparação é que em Montreux, em 4 de dezembro de 1971, ninguém morreu quando um sinalizador foi acesso no meio da plateia e o Cassino incendiou.

O sujeito que acendeu o sinalizador em Santa Maria estava em cima do palco, não na plateia. As faíscas atingiram uma espuma que não devia estar lá. Como o extintor de incêndio estava estragado, o fogo se alastrou, gerando uma fumaça tóxica – e foi essa fumaça, não o fogo, que matou os participantes da balada. Na saída do prédio, só havia uma porta e para chegar a ela era preciso passar por um corredor estreito. Na boate enfumaçada, a luz mais forte era a verde, do banheiro (que não tinha saída). O corredor e o banheiro concentraram a maior quantidade de vítimas.

Roger Glover conta que durante o incêndio em Montreux chegou a caminhar dentro do cassino para apreciar o equipamento deixado no palco pelos Mothers of Invention – um sintetizador de ultimo tipo. Em Santa Maria, o gaiteiro da Gurizada Fandangueira voltou ao palco pra buscar seu instrumento. Só saiu de lá morto. Dias depois, seu pai foi à delegacia buscar a sanfona, que saiu intacta. De óculos escuros, não tinha condições de falar.

Ao pensar nos espetáculos pirotécnicos de tchê music, não consigo deixar de lembrar de outro show do Deep Purple, esse em 1974. No festival California Jam, Ritchie Blackmore e seu roadie explodiram um amplificador usando gasolina, gerando uma das mais poderosas imagens de toda a iconografia do rock.

Ritchie Blackmore explode seu amplificador no festival California Jam, de 1974

Ninguém se feriu, e Blackmore fugiu antes que pudesse ser questionado pelos bombeiros e pela polícia. Até duas semanas atrás, eu considerava isso apenas uma página do folclore do Deep Purple. Uma traquinagem quase inofensiva de um guitarrista genial e genioso.

Depois das prisões do vocalista gaúcho que acendeu o sinalizador e do seu roadie, e depois de estudar normas de prevenção a incêndios, hoje penso que o Blackmore deveria sim ter prestado depoimento e talvez até pago multa. Por mais que eu admire o guitarrista, ele criou um risco desnecessário naquele 6 de abril de 1974.

Com fogo, enfim, não se brinca. E é por isso também que cada vez mais tenho admiração pelo Deep Purple. Seus shows não têm palco de aranha gigante, não têm pirotecnia. Nada. São cinco tiozinhos no palco fazendo o que sabem fazer melhor. Só isso? Não. Tudo isso.

2 Responses to “Por que o incêndio de Santa Maria não foi como o de Smoke on the Water”

  1. Versão brasileira: piorando as músicas internacionais desde a Jovem Guarda.