Muse, The 2nd Law (2012)

Muse The 2nd Law

O Muse é uma das grandes bandas dos anos 2000. Mais uma boa contribuição musical da Inglaterra, o grupo foi formado em 1994 por Matthew Bellamy (guitarra, vocais e teclados), Christopher Wolstenholme (baixo) e Dominic Howard (bateria). O trio, que continua junto até hoje, lançou seus dois bons primeiros discos, Showbiz e Origin of Symmetry, em 1999 e 2001, respectivamente. Para mim, seu ápice se deu em 2003, com o lançamento de Absolution, um disco brilhante, que combina rock com pop e dramaticidade na medida certa. A partir dele, o grupo deu uma guinada comercial: ficou cada vez mais pop, cresceu de tamanho e virou mainstream. Os discos seguintes, Black Holes and Revelations (2006) e The Resistance (2009), embora competentes, serviram mais para afirmação e base para tal crescimento do que para apresentar novidades.

Qualquer um desses discos é uma boa amostra do trabalho do grupo: um pop rock com arranjos elaborados; ora mais comercial, ora mais rock, ora mais experimental. Os primeiros lançamentos são mais crus e conectados ao rock – mas já cheios de dramaticidade. Os mais recentes, como dito, vão em direção ao pop, com arranjos cada vez mais megalomaníacos. Uma das principais características do grupo é não ter vergonha: de ser assumidamente pop, de querer ser mainstream, muitas vezes brega e exagerado. Ou seja: uma banda que não tem a pretensão de ser cool, nem de querer ficar bem com os críticos, muito menos de ser uma banda indie admirada por meia dúzia de seguidores. O trio quer estar no topo. The 2nd Law, seu mais recente disco, embora sem ser brilhante, é muito bom. É uma continuação de todo esse processo: é pop, grandioso, ambicioso, bem acabado e com pitadas de experimentalismo.

O Muse também está cada vez mais Queen. Não necessariamente no estilo musical, nem no brilhantismo, mas na abordagem da construção dos arranjos: eles são bastante complexos e exagerados, contrastando com a estrutura simples das músicas, como é o caso de “Survival” – que tem forte influência do estilo de composição e arranjo de Freddie Mercury. Nessa música ouvimos coros, mais coros e falsetes. Há também uma boa dose de humor e desprendimento. Em The 2nd Law percebemos, também, extremos de propostas: o pop radiofônico sem vergonha de ser feliz de um lado e o experimentalismo de outro – ainda que sempre conectado ao pop. No primeiro caso, temos “Follow Me”, com ares de anos 80, um candidato a hit, mas uma música quase genérica. E a ótima, dançante e grudenta “Panic Station”, que tem um “quê” de uma “Another One Bites The Dust” (do Queen) mais encorpada, com outro arranjo caprichado com direito a naipe de metais ao fundo.

Muse em estúdio gravando The 2nd Law

Do outro lado, na procura por outros caminhos, temos “Madness”, com um riff composto e executado num instrumento diferente, um Misa Kitara (descobri através de uma twitada do Roio). E “The 2nd Law – Unsustainable”, que junta cordas a uma voz robótica e riffs de guitarra bem sujos, malucos e insinuantes, numa batida que flerta com o dub e a eletrônica, em referência clara e assumida ao artista de música eletrônica Skrillex (ouça a música do Muse e em seguida este vídeo e este outro para começar a entender a conexão). E é preciso destacar o cuidado com todos os elementos sonoros, que estão cristalinos, com destaque para as guitarras: timbres diferentes, bem pensados, de acordo com o contexto das músicas. Matthew Bellamy pode não ser um virtuoso, nem um grande inovador, mas está sempre atento a diferentes sonoridades. O guitarrista é como sua banda: não lança tendências, nem tem a ousadia de um Radiohead. Mas pega várias referências que estão à sua volta e incorpora a seu estilo musical.

No meio disso tudo, temos músicas variadas, como a bela “Animals”, cuja sonoridade remete aos primeiros discos do grupo. “Explorers” também mostra um Muse mais “clássico”: começa com um piano, uma balada pop, e seu arranjo – mais um muito bem feito – vai crescendo junto com a música. Ainda nessa linha estão a bela “Save Me” e a rocker “Liquid State”, que apresentam uma novidade: o baixista Chris Wolstenholme nos vocais. E, curiosamente, embora de forte acento pop, o disco termina em “The 2nd Law – Isolated System” que tem um ar melancólico e enigmático. É um bom contraponto a esse belo lançamento, que consolida o Muse como uma grande banda. E que, se não é genial, já conseguiu colocar sua marca no mercado da música.

6 Responses to “Muse, The 2nd Law (2012)”

  1. William disse:

    Ouvi o cd inteiro e nao curti muito nao, acho que Muse esta se voltando muito mais ao pop do que ao rock.. Nada contra quem curte.

    Panic station realmente tem um jeitão anos 80, meio another one bites the dust.
    Mas nao consigo ouvir dub/eletronica como em The 2nd Law – Unsustainable

  2. Rafael Fernandes disse:

    William, realmente o Muse está se tornando muito mais pop do que rock. Quem sabe daqui uns anos eles façam um disco mais como os primeiros.

    No caso “The 2nd Law – Unsustainable”, não é exatamente dub/eletrônico, é – como escrevi – um flerte, uma ou outra ideia. Mas na parte mais agressiva da música há passagens que lembram as músicas que destaquei do Skrillex.

    Obrigado pelo comentário.

    Abs,

    Rafael Fernandes

  3. Esperava que algum de vocês comentasse sobre este disco porque gosto muito do Muse não acho o som deles original, mas mesmo assim desde o Black Holes…(que considero o melhor trabalho deles) eu acompanho a carreira da banda. A respeito desse disco eu vejo algo que ficou destacado também no disco anterior(como já muito bem comentado no post) que é uma mescla de referências desde Queen , como a faixa “Madness” com um solo de guitarra que na primeira escutada já lembra o de “we will rock you”, depois ganha uns aranjos de guitarra meio “The Edge” e uns falsetes do Bono no final,também a Faixa de abertura com um killer riff meio “Kashmir” e um climasso épico, Panic Station outra faixa com referências variadas um início que lembra INXS tanto na guitarra como na abordagem vocal, e no refrão esse “naipe de metais” que lembra muito “Why can i be you” do The Cure. Tudo isso para exemplificar a salada que é, na minha frívola opinião, o mérito maior deles, que é algo semelhante ao que o Tarantino faz no cinema, filtrar todas essas referências da música pop de uma forma muito competente, ou seja, para nós fãs de música, um prato cheio.

    • Rafael Fernandes disse:

      Legal, Gustavo, gostei bastante da sua comparação com o Tarantino, acho que é por aí.

      Tb não acho o som deles tão original, mas eles acabam incorporando o que aparece e ainda mantém uma “cara” de Muse.

      Abs,

      Rafael

  4. Mateus de Bem disse:

    Pra mim eles nunca irão igualar o ‘Absolution’ que é o melhor álbum deles.

    Vou te contar uma: participo de um grupo de fãs do MUSE no Facebook. Os caras acham que Matt Bellamy é melhor que Slash. Não consigo entender isso. Eles acham que só porque o Slash é overrated ele é ruim. O Matt Bellamy é um bom guitarrista só que a guitarra dele lembra demais guitarristas como Tom Morello, Brian May e The Edge. O Slash é um guitarrista simplório que os solos dele quase que falam com a música. Me explica o porque desse xiitismo de fãs de MUSE.

    • Rafael Fernandes disse:

      Mateus, xiitas serão sempre xiitas, não dá para argumentar racionalmente.(tentamos desvendar esse fenômeno nesse tungcast: http://www.geekmusical.com.br/index.php/2009/09/15/tungcast005-fas-xiitas/)

      Não acho o Slash simplório. Além disso, é difícil comparar diferentes estilos. Acho o Matt um ótimo guitarrista, que procura sons diferentes. Mas o Slash faz o lead guitar em bandas com 2 guitarristas e o Matt precisa fazer a base e o solo num power trio – além de cantar.

      É quase como comparar 2 jogadores de posições diferentes. :P

      Abs,

      Rafael