Dia de celebração: acabou a escassez do Led Zeppelin

O que leva cinco marmanjos a deixarem suas famílias e/ou namoradas/esposas em casa para se dirigirem ao cinema à meia-noite de um sábado no meio de um feriado? Talvez só o Led Zeppelin. Digo aqui e já retifico: é só o Led Zeppelin mesmo. Pode soar exagerado, mas retrocedam no tempo comigo. Desde o fim da banda, no remoto ano de 1980, quantas vezes eles se reuniram para tocar para os fãs? Apenas no Live Aid de 1985, no concerto dos 40 anos da Atlantic em 1988 e no Hall of Fame de 1995. E em todas as oportunidades só tocaram um punhado de músicas desleixadamente. Você pode argumentar que Jimmy Página e Roberto Planta fizeram a turnê Unledded em 1995-96 (sim, eu estava lá e vi um dos maiores shows da minha vida). Mas convenhamos, a ausência do João Paulo Jonas no baixo/teclados alterou demais a sonoridade. Não era o verdadeiro Zepp. Eis o grande fato, já apontado por Marcelo Soares (um de meus comparsas nessa aventura cinematográfica): o Led Zeppelin se tornou um fenômeno da escassez no rock. Fora do catálogo oficial da banda, pouca coisa foi lançada – e o que saiu era tudo de péssima qualidade, com encartes e áudios inaceitáveis a qualquer geek musical que se preze.

Chegamos ao ano de 2007 e está anunciada uma apresentação única do Led para o dia 10 de dezembro na O2 Arena em Londres. Sim, estariam todos lá. Page, Plant, Jones e Bonham Filho. Quem neste mundo conseguiria sensibilizar esses quatro e reuni-los para um show completo? Só mesmo Ahmet Ertegün, o todo poderoso fundador da Atlantic Records, morto um ano antes. Acontece que 20 milhões de pessoas não cabiam numa arena de apenas 20 mil. “Tudo bem. Ano que vem sai o DVD”, pensei na época. Engano. Na praça, só uns bootlegs hediondos. Incrível que em plena era digital, ninguém fosse capaz de fazer uma filmagem que chegasse ao razoável. Enfim, o resultado foi inevitável: mais 5 anos de escassez. Quando tudo parecia esquecido, uma contagem regressiva no Facebook e BUM! O show, batizado de Celebration Day, chegaria primeiro aos cinemas e depois em CD, DVD e Blu-Ray. Ver shows no cinema pode parecer estranho a princípio, mas tem sido uma boa estratégia para bandas grandes estarem em todo lugar ao mesmo tempo. O U2 lançou uma versão 3D de seu show Vertigo e na turnê seguinte transmitiu ao vivo o show 360o no YouTube. Já o Red Hot Chili Peppers abriu sua última turnê nas salas de cinema em 2011, buscando atrair o público para a série de shows que se iniciava. Agora era a vez do Zepp…

Ver Celebration Day numa tela de cinema foi a redenção daqueles que ficaram de fora da festa em 2007. Com a banda afiada, repertório bem escolhido e ensaiado, som perfeito e uma filmagem primorosa, pudemos finalmente degustar um show completo do verdadeiro Led Zeppelin. Logo de cara, percebo que várias músicas foram executadas um tom abaixo da versão original, alterando o andamento (como em “Dazed and Confused”), mudando as dinâmicas (como em “Ramble On”), ou soando como releituras (caso de “Rock And Roll”). Alguns podem não ter gostado, mas era a coisa certa a fazer, pois ninguém consegue fazer o que Plant fazia há 40 anos – nem mesmo Robert Plant. Mas, em outros casos, a descida no tom deu um novo colorido às músicas. “No Quarter”, por exemplo, ficou ainda mais sombria e gutural. Já “Trampled Under Foot” teve seu groove revigorado e esta nova versão ficou mais para Stevie Wonder do que para Robert Johnson – o que a fez entrar para a minha lista de preferidas de todos os tempos. Devo dizer que ouvir “For Your Life” ao vivo pela primeira vez é algo difícil de colocar em palavras, já que passei anos arranhando macarronicamente essa música na guitarra. Mas nada superou “Kashmir”. E vou mais longe: desta vez, eles atingiram a perfeição. Não digo isso só porque não foi necessário descer um tom para tocá-la, mas sim porque, aos meus ouvidos geeks, sempre faltava algo quando a tocavam no palco. Ou era o teclado que não estava bem equilibrado com a guitarra, ou os timbres não funcionavam ao vivo, ou eles inventavam de colocar orquestra… Agora não. Agora tudo funcionou na mais perfeita ordem e declaro esta a versão definitiva de uma das maiores obras-prima do classic rock.

“Ah, mas por que devemos reverenciar esse velhos acabados se eles nos negligenciaram por 30 anos?”, dirão os chatos. “Ah, mas não tinha o John Bonham”, dirão os ainda mais chatos. Que me importa se Robert Plant está parecendo o Inri Cristo? Que me importa se Jimmy Page está parecendo o Tremendão Erasmo Carlos? O que importa é que os velhinhos provaram que a magia não se perde com a idade. Ao contrário, este Led Zeppelin que vimos agora era o mesmo dos anos 70, envelhecido por décadas de sabedoria musical e adicionados pelo DNA e pela juventude do quarentão Jason Bonham, que espanca a bateria com a mesma fúria do pai. O fato é que havia toda uma geração – a minha e outras várias – que estavam sedentas por este momento. A empolgação era incontrolável. Tanto que, entre uma música e outra, podia-se notar aplausos na sala do cinema. No primeiro acorde de “In My Time Of Dying”, tinha gente afundando na cadeira, dizendo “PUTA QUE PARIU!”, se contorcendo em espasmos mediúnicos. No final do “show”, chegaram até a pedir bis. Pode parecer estúpido agora, mas fez total sentido naquela hora. Mesmo ainda catatônico depois de 2 horas de magia, uma constatação já era possível fazer. Celebration Day é realmente tudo aquilo que esperávamos do Zepp por todas essas décadas. Quem sabe agora essa nova geração de analfabetos musicais aprenda que “D’yer Mak’er” não foi composta pela Claudia Leitte…

E, para fechar, é com extrema felicidade que vos digo: a escassez chegou ao fim. Já podemos todos nos atirar na primeira loja que aparecer pela frente para comprar um exemplar do combo CD+DVD/Blu-Ray. E não, moçada, o download gratuito não é uma opção. Não desta vez.

4 Responses to “Dia de celebração: acabou a escassez do Led Zeppelin”

  1. Rodrigo Annes disse:

    Queria ter assistido esse show no cinema também. Na verdade, queria ter assistido esse show em Londres, mas no cinema já seria muito bom.

    Como em Brasília não tivemos sessões, estou aguardando para comprar o Blu-ray e assistir em casa mesmo.

    Gostei muito da reportagem, só aumentou a ansiedade da espera.

    Um abraço!

  2. Se tiver pré venda do blu-ray,eu concerteza farei uma pré compra, e digo mais! Se tivesse material inédito deles eu acamparia na frente da fnac, existe possibilidade?