Trevor Rabin, um guitarrista subestimando | Geek musical - para musicólogos e musicólatras / Tungcast - o podcast que debate música em nível geek

Trevor Rabin, um guitarrista subestimando

Quem disse que é só no Van Halen que há uma “guerra” entre os acólitos de diferentes facções da banda? No Yes temos algo parecido, embora bem menos virulento e caricato. É a “guerra” entre os fãs de Steve Howe e Trevor Rabin. Este último costuma ser alvo de uma série de críticas dos xiitas. A maior delas é a de ter feito do Yes uma banda “pop” (crítica parecida à que fazem a Sammy Hagar no Van Halen). Vamos ao ponto: Rabin não é apenas um injustiçado pelos puristas do progressivo. É um dos guitarristas mais subestimados em todo o rock. Natural de Joanesburgo (África do Sul), Rabin chegou ao Yes de uma forma um tanto tortuosa no início dos anos 80, se notabilizando como grande virtuoso e mostrando suas habilidades também como compositor, produtor, arranjador, vocalista, tecladista, cobrando escanteio e cabeceando. Mas todas essas habilidades não foram obra do acaso. Oriundo de uma família politicamente ativa, Rabin começou tocando em bandas anti-apartheid e, em meados dos anos 70, se popularizou localmente como o líder a banda juvenil Rabbit (uma espécie de Beatles sulafricano). A música “Working for the People” o colocou em rota de colisão com o regime e o choque veio logo em seguida, ao iniciar a carreira como produtor de artistas negros e conhecer mais de perto as marcas da segregação racial. A exemplo de seu primo Donald Woods (o jornalista que defendeu Steve Biko), Rabin teve que sair do país em 1978. Em seu exílio na Inglaterra, se lançou em carreira solo, sem grande repercussão.

Mais tarde, foi tentar a sorte nos EUA, buscando um contrato com alguma gravadora. Foi lá que Chris Squire, o lendário baixista do Yes, encontrou uma demo sua na Atlantic e ficou impressionado. O que veio depois é história. Rabin ganhou fama de “hitmaker” e foi o responsável pela ressurreição da banda em 1983, com o multiplatinado álbum 90125. Puxado pelo mega-hit “Owner of a Lonely Heart”, o disco é, de longe, o mais vendido da carreira da banda. Mais tarde, em 1989, em meio a uma pausa no Yes, ele lança Can’t Look Away, seu quarto disco solo. Um trabalho mais autoral que, segundo ele próprio, retrata a angústia de um sulafricano nos anos derradeiros do apartheid. Em 1994, ele se torna o principal compositor (e também produtor) do Yes, lançando o subestimando Talk — um trabalho excepcional, que aliava a verve mais pop da banda nos anos 80 com o lado mais progressivo da década de 70. No mesmo ano, a Talk Tour passava pelo Brasil. Foi um dos shows mais marcantes em que já estive (e olha que já estive em muitos).

Apesar de Talk ter sido um sucesso de crítica, foi um fracasso de público e, em 1995, após 13 anos no Yes, Rabin deixa a banda para encontrar seu próximo passo na música — que veio de maneira um tanto curiosa. Como frequentador assíduo de um restaurante em Los Angeles, ele recebe um pedido inusitado: o métri lhe pede que vá à casa do ator Steven Seagal (um dos donos do restaurante) para lhe dar aulas de violão. Sem nada a perder, ele foi. Dada a aula, o astro brutucu de filmes de ação lhe abre as portas…

— Muito obrigado. Se eu puder retribuir essa gentileza de alguma forma…
— Bem, se você puder me indicar alguém em Hollywood, um agente, talvez… Estou pensando em fazer trilhas de filmes — responde Rabin.
— Bem, estou finalizando um filme agora. Se quiser fazer a trilha…

E assim, The Glimmer Man se tornou seu passaporte para o milionário mercado de film scores. Trevor Rabin é hoje um dos mais requisitados de Hollywood e conta com mais de trinta filmes em seu currículo. Certamente, a indústria cinematográfica ganhou um grande compositor e um músico multifacetado. Uma pena que, para isso, os fãs de prog tiveram de perder um excepcional guitarrista.

Neste ano, Rabin saiu da sombra de Hollywood e lançou um novo álbum solo totalmente instrumental, intitulado Jacaranda, onde ele experimenta mais seu lado jazz/fusion. Certamente auspicioso, mas ainda um pouco distante do rock progressivo e virtuoso com aquela veia pop que ele sabe fazer como poucos. Nos últimos anos falou-se muito de que Rabin estaria trabalhando com Rick Wakeman e Jon Anderson. Não há nenhuma confirmação até o momento, mas é certo que é aí que estão todas as atenções do fãs. O jeito é esperar por novidades.

Para ir além
90125: o renascimento do Yes
Guitarristas em carreira solo: Trevor Rabin, Can’t Look Away
Talk, um disco subestimado

8 Responses to “Trevor Rabin, um guitarrista subestimando”

  1. Mel disse:

    Essa do Steven Seagal eu não sabia.
    Acho que são duas bandas, o Yes antes e depois do Rabin.
    A época exigia aquele tipo de mudança.
    E os hits com certeza serão os grandes responsáveis pela grana continuar entrando durante muito tempo para o Yes.
    Rabin solo é bom demais, o cara toca tudo, tem voz boa, é um bom letrista.
    Sou fã.
    Rabin no Brasil tem dois ingressos vendidos com certeza: Diogo Salles e eu.

    • Diogo Salles disse:

      Tem muito mais, viu, Mel. O cara é muito bom mesmo, mas, estranhamente, se tornou uma figura esquecida do meio roqueiro. Confesso que não entendo muito bem isso. Tá certo que ele se escondeu em Hollywood, mas não a ponto de desaparecer por completo.

      Engraçado são os puristas do prog, que reclamavam do Rabin, mas agora não veem problema em ter o Yes com uma formação totalmente desfigurada como a atual.

      bjs
      Diogo

  2. Sou grato por esse post que me fez buscar mais material desse personagem importante do Yes, estou com aquele sentimento inerente à todo geek musical, onde você encontra o som perfeito para sua vida atual e tudo faz sentido. Esse rock profundo disfarçado de hit radiofõnico faz muita falta aos músicos do mainstream hoje, nhé… bom pra Hollywood

    • Diogo Salles disse:

      Exato, Gustavo! O que os xiitas não percebiam à época do Rabin no Yes era o quanto ele contribuiu musicalmente para o desenvolvimento e o sucesso da banda em nichos que eles nunca atingiriam se tivessem seguido o progressivo tradicional.

      É um músico espetacular e provou isso dentro e fora do Yes.

      abs
      Diogo

  3. Paulo-Roberto Andel disse:

    Excelente, Diogo. Rabin rules!

  4. Ivan Fernandes disse:

    Uma das bandas que mais curto, tive o prazer de ir a pelo menos tres shows deles aqui em Sampa, pelo menos em dois shows do Yes que fui Trevor Rabin estava com a banda, num deles da Turne Union, o desempenho dele pra mim como guitarrista é sensacional e como vocal no Yes acho muito foda o cara, deixo aqui pra voces um clip onde ele faz o vocal, Trevor Rabin é Ducaralho!

    https://www.youtube.com/watch?v=Hrowi4hHz8A

    Grande Abraço

  5. carlos gigante disse:

    concordo com vocês o cara é bom pacas gosto mais dele que do esteve howe por exemplo e as pessoas tem a mania de julgar a musica e não o musico eu só queria saber com base em que eles escolhem que é bom ou quem é melhor que quem

  6. zepires disse:

    Nada contra o Steve Howe, mas um cara que me fez perder dez cervejas por conta de um solo que eu achei que era de teclado, merece todo o respeito de quem gosta de música…