Dream Theater e Mike Portnoy estão melhores um sem o outro

dream theater com mike mangini

 Em 2010, os fãs do Dream Theater ficaram chocados com o anúncio da saída do baterista Mike Portnoy. Isso porque ele sempre foi o membro símbolo, o líder, quem dava as entrevistas, interagia com os fãs, cuidava de cada detalhe dos lançamentos, etc. Ao que parece (e o que foi dito) é que sua saída foi por diferenças de visão em relação ao futuro do grupo. É possível entender tanto os motivos da escolha do baterista quanto os de seus ex-colegas. E, após dois anos, dá para dizer que essa ruptura foi boa para ambos os lados. Mas, antes, vamos relembrar como tudo aconteceu.

Numa reunião que definiria o planejamento de gravação do próximo disco, Mike Portnoy pediu a palavra e disse que gostaria que a banda desse uma pausa em suas atividades. Alegou que estaria cansado do ambiente. Não, ele não estava estressado nem extenuado por se envolver tanto em todos os aspectos do grupo. Ele simplesmente achou que as coisas não estavam mais funcionando para ele em termos musicais e de relacionamento. Aparentemente, houve apenas uma estafa natural, tanto em termos criativos quanto em termos de convivência.

Como fã, posso entender. Acho que os últimos três lançamentos do Dream Theater antes de sua saída foram meio no “piloto-automático”. As ideias estavam se repetindo, parece que já fizeram tudo o que podiam. Também em termos profissionais é possível entender. Mesmo com algumas pausas, é duro aguentar as mesmas coisas, a mesma convivência, os mesmos tipos de trabalho e procedimentos durante 25 anos.

Por outro lado, é possível, tranquilamente, entender John Petrucci, John Myung, James LaBrie e Jordan Rudess na opção de continuar. Estava pré-acordado que voltariam para compor o novo disco da banda no início de 2011. Imagino que todos se prepararam e adaptaram suas agendas. Além disso, se realmente estavam empolgados para continuar, seria um balde de água fria parar – algo que é abertamente comentado no documentário sobre a busca de um novo baterista. Até porque, inicialmente, a intenção de Portnoy seria fazer uma pausa longa, sem marcação de retorno. Realmente, não é algo confortável para quem não vê necessidade de parar. Ainda mais levando em conta que a banda é, também, o ganha pão de todos. Apesar desse drama, os acontecimentos desde a ruptura até este 2012 mostram que o Dream Theater está melhor sem Portnoy e o baterista está melhor fora da banda.

No Dream Theater estão músicos altamente técnicos, focados na pureza da execução, geeks, quase nerds do instrumento - Mike Manigni, portanto, é o encaixe perfeito. Claro, Mike Portnoy é técnico, mas ele tende a uma pegada rock e metal, é mais criativo do que preciso, muito mais um autor do que um músico purista. Mangini, ex-professor da Berklee, é uma espécie de John Myung da bateria: um obcecado pela precisão da execução. Não eram raros os momentos em que Portnoy acelerava ou arrastava o andamento de uma música ao vivo – o que não acontece mais com o novo Mike. No palco, a banda perde o carisma do ex-baterista. Mas com Mangini a banda fica com um perfil de banda de jazzistas, embora num som progressivo: todos muito mais preocupados em simplesmente tocar o melhor possível. Além disso, a personalidade forte e obsessiva de Portnoy parecia sufocar a banda e alguns de seus integrantes. Em entrevistas, declarações e nos palcos, a banda parece mais leve – pura suposição, claro.

mike portnoy

Por outro lado, Mike Portnoy ficou grande demais para o Dream Theater, até por essa sua personalidade forte e de abraçar mil e um projetos. Ainda que indiretamente, a banda tolhia suas ambições musicais – por mais que tentasse inovar, sempre estaria numa zona de conforto, como provou A Dramatic Turn Of Events: um disco competente, mas nada mais do que isso. É possível discutir a qualidade de cada um dos seus projetos recentes, mas é inegável que a quantidade de participações e a variedade de estilos das suas bandas pós Dream Theater combinam mais com essa sua ambição de transitar por diferentes vertentes musicais.

No Adrenaline Mob ele pôde satisfazer sua veia metal; no Flying Colors, voltou ao rock progressivo clássico que flerta com o pop moderno; no projeto instrumental com Billy Sheehan, Derek Sherinian e Tony MacAlpine testa os limites da improvisação e do virtuosismo. E, para 2013, prepara o lançamento de um improvável trio de hard rock também com Sheehan e, pasmem, com Richie Kotzen na guitarra e vocais. A variedade de estilos que ele tentava impor ao Dream Theater – que ia desde o metal ao pop água com açúcar nos últimos discos – agora está dividido em várias bandas. E, assim, mais focado, menos esquizofrênico do que estava ficando no Dream Theater, tem melhores resultados. Já sua ex-banda pode, quem sabe, voltar a um metal progressivo mais clássico, mais coerente e focado musicalmente e melhor acabado – um caminho mostrado em A Dramatic Turn Of Events. Aguardemos os próximos capítulos dessa saga, que até agora deixou bons frutos para ambas as partes.

Outros Links Geeks:
Ouça o Tungcast Dream Theater

7 Responses to “Dream Theater e Mike Portnoy estão melhores um sem o outro”

  1. Vitor Soares disse:

    Não havia pensado por esse lado, de ele tentar impor varios ritmos ao Dream Theater, mas foi algo que fez sentido agora… parabens pela materia!

  2. Rafael Fernandes disse:

    Obrigado pelo comentário, Vitor. Volte sempre.

    Abs,

    Rafael Fernandes

  3. Lucas D'Angelo disse:

    Rafael,

    Parabéns pela matéria, você conseguiu expôr perfeitamente o sentimento dos músicos.

    Muito bom.

    Abraço

  4. iago barros disse:

    concordo plenamente com o que foi dito no texto.sou um grande fa do mp,e grande fa da banda tambem(desde os cinco anos.apesar dessa minha ‘adoraçao’ pelo os dois;sabemos muito bem que a banda em si tem a chance agora de mostrar do sao feitos.sem aquela apelaçao para o metal mais mainstream dos dois ultimos albums.

    agora falando sobre vcs.obrigado por fazerem esse site legal e o podcast que me entretem por algums momentos quando n estou trabalhando.apesar da minha pessoa trabalhar com musica,nao e todo dia que eu posso estar em contato com o que agrada aos meus ouvidos….entao mais um vez obrigado……..

  5. Rafael Fernandes disse:

    Legal, Iago, nós é que temos que agradecer a preferência! Volte sempre!

    Abs,

    Rafael Fernandes

  6. Daniel Reis disse:

    Concordo muito com o que foi dito. Portnoy é um músico de primeira grandeza (tal como Mangini). Realmente, a perda do seu carisma e presença de palco nos shows da banda é algo gritante. Percebi que Mangini nas audições mostrou uma pegada violenta (no sentido positivo, quem é músico sabe perfeitamente do que se trata) no instrumento. Porém nos shows não consigo mais ver tal pegada e precisão. As mesmas músicas no palco com Portnoy tem uma batera mais viva, com mais pegada, digamos, mais encorpada. Claro que ambos são músicos extraordinários, mas Portnoy era uma peça fundamental na banda.
    Gostei do texto… Abraço man!!!