Mr. Mojo Risin’ – a melhor parte da história do The Doors

Uma pergunta que pouca gente fez no rock: qual banda no mundo fez de seu último álbum o melhor de todos? O mais comum é ver bandas lançarem uns 2 ou 3 discos, tomarem umas pedradas da crítica para, aí sim, estarem prontos lançar o seu grito primal. Depois de saborearem seu melhor momento, vem o declínio, até saírem de cena escoltados pelos “die hard fans”. Pois, na contramão de tudo isso, afirmo categoricamente que o último disco do The Doors é o melhor da banda. Para celebrar os 40 anos de L.A. Woman, chega ao Brasil, em DVD/Blu-Ray, o documentário Mr. Mojo Risin’ – The Story of L.A. Woman. O filme contém basicamente tudo o que você precisa saber sobre o disco, sobre Jim Morrison e sobre os Doors.

Para quem gosta de entender títulos estranhos, “Mr. Mojo Risin” (extraído da faixa-título) é um anagrama para o nome Jim Morrison e “mojo” é uma gíria bluseira para a sexualidade. E é disso que se trata L.A. Woman: blues, sexo, poesia e psicodelia. Em 1966, os Doors nasceram com a proposta de abrir as portas da percepção. Quatro anos depois, ele tinham fechado todas as portas dentro do showbizz: estavam na lista negra de todos os tour managers do país e tinham sido banidos de todos os festivais de música e programas de TV. Isso sem falar dos inúmeros processos na justiça e da iminente prisão de Jim Morrison por exposição sexual e incitação ao tumulto no fatídico show de Miami. Resumindo: a única coisa que eles não estavam impedidos de fazer era gravar um disco. O problema era fazer Morrison largar as drogas e a bebida para se dedicar às gravações.

O resultado das primeiras sessões no estúdio deixaram todos de sobreaviso. As músicas não estavam se encaixando, Morrison estava entediado e a frustração era geral. O produtor Paul Rothschild — que produzira todos os álbuns da banda até então — decidiu que estava tudo acabado e se mandou. Sobraram o engenheiro de som Bruce Botnick e a banda para tomar a decisão que mudou o destino do projeto: sair do estúdio Sunset Sound e voltar para o Boulevard Santa Monica, o “QG” do Doors, onde tudo começou. Era lá que eles se sentiam em casa para gravar ao estilo “garage”, mais orgânico, como que numa extensa jam session. Somando-se a isso, alguém teve a brilhante ideia de chamar o baixista da banda do Elvis Presley para criar as linhas de baixo no disco, o que certamente deu a Morrison a motivação que lhe faltava. O resto é história.

L.A. Woman é muito mais do que “apenas” um grande disco. É um tapa na cara do mesmo star system que expeliu a banda de seu círculo. O The Doors só acabaria quando eles quisessem, não quando a critica decretasse, esse parecia ser o recado logo na abertura, com o groove alucinante de “The Changeling”. O poema de Morrison “The Wasp (Texas Radio and the Big Beat)” finalmente ganhava uma versão musicada. O single “Love Her Madly” confirmava a fama de hitmaker de Robby Krieger. “Riders On The Storm” investia num clima jazzy e a tempestade de fundo que deixa o ouvinte entre o melancólico e o viajandão (aí depende da sobriedade e do humor de cada um). A faixa-título tem aquela levada bluesy irresistível, cheia de climas e que abria espaço para improvisos brilhantes de Robby Krieger e Ray Manzarek. Melhor do que qualquer livro ou fotografia, a letra descrevia em prosa o que era a Los Angeles daquele tempo e antecipava para 1971 todas os excessos que as futuras bandas glam metal viriam a desfrutar nos anos 80. Tente se imaginar fazendo sexo com uma desconhecida no meio da Sunset Strip… Por aí.

Gravar grandes discos vai muito além de ter uma banda talentosa, um produtor competente e os melhores recursos de estúdio. Diversos fatores podem contribuir ou não para que o disco seja um hit em seu tempo e um clássico para a posteridade. Um universo oposto a tudo o que nos acostumamos a ver no showbizz. E toda a sobrevalorização dos Doors aconteceu exatamente por isso: por quererem transformar Jim Morrison em “poeta-símbolo-sexual” — ao mesmo tempo em que faziam fila para malhá-lo em praça pública, como se fosse um Judas do rock. Precisou que o mundo desmoronasse em sua cabeça para que, ironicamente, ele nos entregasse a sua melhor performance. Se Morrison queria dar o seu último respiro criativo para depois terminar tudo em Paris, quem somos nós para convencê-lo do contrário? O fato é que quando ele já não servia mais ao mainstream, só sobraram os amantes da boa música (os geeks!) para testemunhar este momento notável. Portanto, aqui estamos nós, depois de mais de 40 anos, celebrando este que é o maior epitáfio que uma banda de rock já produziu — e deixo aqui o desafio a você, leitor, para destacar algum melhor (depois de ouvir o disco, claro).

11 Responses to “Mr. Mojo Risin’ – a melhor parte da história do The Doors”

  1. Desafio difícil, mas Eletric Ladyland faz uma concorrência digna.

    • Diogo Salles disse:

      Gustavo, considero o Electric Ladyland tão bom quanto o Axis e o Experienced, de modo que não consigo apontar um disco do Hendrix como “o melhor”.

      Mas foi uma boa lembrança, sem dúvida.

      abs

  2. Caio disse:

    Melhor do Doors sem duvidas, uma vez li um jornalista falando ser o “primeiro disco indie” fiquei extremamente triste devido essa categorização criada para “pop-estranho”. HUEAUHEAHUEA

    Mas como os fãs de “cultura londrina” que usam uma gíria dos anos 40 usada para categorizar fãs vadios de jazz (hipster) associam The Doors aos “Dinossauros feios”.. HUEAHUAEHUHUEA Não levei em consideração.

    Discasso!!

    Mas boa lembrança de que Eletric Ladyland faz uma boa concorrencia.. O problema que dizer qual é o melhor da banda The Jimi Hendrix Experience, é dificil pra mim tbm..

    • Diogo Salles disse:

      Oi, Caio,

      Meio estranho dizer que seria o “primeiro disco indie” mesmo. Coisa de jornalista hipster.. rss

      Sobre o Hendrix, como eu disse, não consigo apontar um disco dele que considero “o melhor”.

      abs
      Diogo

  3. Lucas disse:

    Disco incrivel!! Concordo com vc, a banda era tão boa que nao dependia de produtor, gravadora, critica ou mídia para brilhar, tanto que brilha até hoje para muitos. (Embora não goste deste misticiso hippie de jim, e sim do timbre natural de sua voz.)Da para ver que ele canta bêbado nas 5 primeiras musicas. Ehe, não é atoa que o vicio o destrui, infelizmente.

    • Diogo Salles disse:

      Lucas, um dos grandes baratos desse disco é ouvir o álcool na voz do Morrison.

      Apesar de parecer só doideira, tem uma interpretação bacana ali. Combinava com o clima do disco. Os caras estavam totalmente soltos.

      abs
      Diogo

  4. Gonçalo Vasques de Carvalho disse:

    Sinceramente acho uma grande baboseira dizeres que este é o melhor disco deles. É um bom disco de blues, nada mais! Esse nem era o tipo de som que os fez ser o que são e que fez a banda existir!
    O primeiro album “The Doors” é algo de incível, puro psicadélico, essência da banda e para mim o melhor albúm deles é o “strange Days”, segundo álbum. Qualquer um deles é melhor que o L.A. Woman, apesar de ser um bom disco de blues.

    • Diogo Salles disse:

      Gonçalo, tirando o “Soft Parade”, acho que todos os álbuns do Doors são bons, mas realmente acho o L.A. Woman o melhor. Realmente não é o som clássico do Doors, mas esse disco tem algo de especial, justamente por trilhar o caminho do blues.

      abs

      • yur disse:

        l.a woman é o melhor para a minha geração passei por muita coisa nos ultimos 2 anos ainda mais agr antes da chegada de 2015 e digo desde o morrison hotel eo l.a woman encontrei espiração para enfrentar problemas de familia e de saúde e ele estava certo mr mojo risin sim eu praticamente ressuscitei e continuo viajando!

  5. Vinicius disse:

    Ah, os Doors… Jamais serão esquecidos.

  6. Sérgio disse:

    É simplesmente impossível assistir ao clip de L.A. Woman e tentar parar no meio. Tantos anos se passaram e o efeito hipnótico do Doors continua ativo. Se a banda tivesse que incluir mais um letrista, teria que ser o Carlos Castaneda.hhauah