Em defesa de Sammy Hagar, contra o Roth Army

Conforme prometido no último post, agora é a vez de eu defender o Sammy Hagar contra os xiitas do tal do “Roth Army”. Aliás, só pelo nome, o fórum já mostra o tipo de gente que circula por lá. Gente que precisa ter a sua cabeça examinada com urgência. Excetuando-se todos os xingamentos e vulgaridades, as críticas pretensamente “musicais” que circulam ali compõem uma coletânea dos piores clichês do rock: “não é o Van Halen original”, “a banda ficou pop com o Spammy”, “Spammy deu sorte de entrar na maior banda de rock do mundo”, “Spammy deu pouca contribuição ao rock”, “Spammy tem inveja do David” e blá-blá-blá… Não é só de conservadorismo musical que estamos falando. É de preguiça auditiva e intelectual. Os “argumentos” usados por essa gente são de uma fragilidade tão grande, que só facilitou o meu trabalho para desmontá-los. Bem, aqui vamos nós…

1) Sabemos que os bulletheads do Roth Army possuem um tipo diferente de verdade, mas no fundo, no fundo eles têm plena consciência de que Sammy Hagar era o cara certo para substituir o Dave no Van Halen. E é dessa relutância em reconhecer o óbvio que vem todo esse ódio em relação ao Red Rocker. Vejam bem, em 1985, o ego do David tinha extrapolado todos os limites e a situação entre ele os outros três tinha se deteriorado a tal ponto, que não havia meios de a banda continuar. Sammy entrou no Van Halen num momento perigosíssimo. Eles tinham acabado de atingir o topo com 1984 e a saída do David foi traumática a ponto de colocar o futuro do Van Halen em dúvida. Além da grande musicalidade, Sammy trouxe também a paz para a banda. A felicidade de Eddie, Alex e Mike com a entrada do Red Rocker na banda é nítida tanto nos shows da época quanto no especial na MTV intitulado Van Halen Unleashed (nome sugestivo, não?).

2) Um fato conhecido de todos é que os experimentos do Eddie com os teclados incomodavam o David, que o queria apenas como guitar hero. Acontece que Eddie não é apenas um gênio da guitarra. É um gênio da música, acima de tudo. E ele estava disposto a expandir seu vocabulário musical, explorando ao máximo os teclados. Nesse contexto, o Sammy se encaixou perfeitamente no tipo de composição que o Eddie estava buscando. Com a chegada do Red Rocker, a banda ficou mais melódica e trabalhou os arranjos de uma forma diferente. Nem melhor, nem pior. Diferente. Gostem ou não, ele foi crucial nessa reinvenção da banda, levando a música do Van Halen a ganhar novos adeptos pelo mundo (inclusive aqui no Brasil). E tudo isso, sem que fosse preciso usar os antigos clássicos como muleta, pois Sammy construiu o seu próprio repertório, que hoje também se tornou clássico.

3) Como disse Abel Sanchez em seu livro Van Halen 101, Dave é um cara que saber tocar, já o Sammy é um puta de um guitarrista, ok? Quem duvida, basta dar uma olhada no vídeo Live Without a Net, onde Sammy ora assume a primeira guitarra (quando Eddie vai para os teclados), ora assume a segunda guitarra (dando um peso ainda maior às músicas). E não adianta criticar, porque o cara toca muito. Muito melhor, inclusive, do que muito guitarristinha pseudo-cool por aí.

4) Se a intenção dos Roth freaks era fazer uma crítica ao dizer que a banda “ficou pop” com a entrada do Sammy, o tiro saiu pela culatra. Primeiro porque o pop não substituiu o rock, foi apenas um ingrediente a mais na música da banda. Segundo porque fazer baladas que não soem xaroposas não é exatamente uma tarefa fácil (vejam as baladas hediondas que Scorpions, Bon Jovi e Aerosmith fizeram). E terceiro porque foi o Sammy quem ajudou a trazer o Van Halen para mais perto do público feminino, com baladas como “When It’s Love”, hits pop como “Why Can’t This Be Love”, rocks poderosos com uma veia pop, como “Dreams”. E o melhor de tudo isso é que ele conseguiu equilibrar as baladas com pedradas maravilhosas, como “A.F.U. (Naturally Wired)”, “Judgement Day” e “Humans Being”.

5) Se David é um cara mais excêntrico e muitas vezes pode se tornar egocêntrico, Sammy é o oposto disso. É o tipo do cara festeiro, que gosta de comemorar com os amigos, curtir uma praia, tomar umas e outras com a galera. Sammy é gente como a gente! Além disso, ele foi um cara que trilhou praticamente sozinho o caminho dele no rock. E, ao contrário do que muitos dizem, ele não venceu na vida só depois de entrar no Van Halen. Já tinha construído uma carreira solo de sucesso e encontrado o seu público com todos os méritos.

6) E, finalmente, por mais que David seja um grande cantor e tenha um senso rítmico fora do comum, o alcance vocal do Sammy, além de ir mais longe, deu mais liberdade ao Eddie para compor. Sammy transita bem nos mais variados estilos e escalas, enquanto que o David é o próprio estilo — que é fantástico, mas que limita um pouco o escopo do Eddie. E essa vai doer para os Roth psychos, mas há de se reconhecer que o Sammy (mesmo sendo 7 anos mais velho do que o David), envelheceu melhor suas cordas vocais e hoje ainda consegue atingir as notas mais altas nos shows — coisa que o Dave, infelizmente, não conseguiu fazer.

Então, voltando à questão inicial, quem é melhor: Sammy ou David? Resposta: os dois. Para resumir a questão toda, o Van Halen foi mais inovador e influente na cena roqueira com o Dave, mas atingiu um público maior e mais variado com Sammy. Eddie é o gênio da banda, sempre será, mas ele precisa de um grande parceiro para compor — e isso só funcionou com Sammy e David. E sim: os dois vocalistas, em seu devido tempo, foram co-responsáveis pelo sucesso do Van Halen. David ajudou a tornar a banda a maior do hard rock, e Sammy ajudou a mantê-la no topo.

Para fechar, peço que façam um retrospecto: em 1986, tínhamos o Van Hagar com o 5150 e David Lee Roth com Steve Vai e Billy Sheehan lançando o inacreditável Eat ‘Em And Smile. Em vez de comemorar, preferiram travar essa briga infantil de “quem é melhor?”. Agora, 15 anos depois de uma seca que parecia não ter fim, temos o Van Halen com David de volta no espetacular A Different Kind of Truth e o Chickenfoot que, para mim, é uma das melhores surpresas do rock nesses últimos anos. Então, vamos curtir os dois, certo? Não, os xiitas querem só o seu pedaço da banda e não estão dispostos a tolerar nada que não seja a formação que eles idealizaram como a “certa”. Pior de tudo é que não conseguem curtir o que preferem sem destilar seu rancor e sua inveja contra o outro lado. Sei que meus argumentos não vão fazer os psicóticos recuarem (não foi para isso que escrevi esses textos), mas fico muito contente que as carapuças tenham servido tão bem em ambos os lados. Encerro aqui a minha participação na “guerra” mandando um recado aos teenagers do Roth Army e do Red Army: ENVELHEÇAM.

I know what it’s worth, if we could have the best of both worlds.
Sammy Hagar

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9 Responses to “Em defesa de Sammy Hagar, contra o Roth Army”

  1. Magno VH 5150 disse:

    Sammy é melhor e pronto!

  2. O Sammy é parente do Hagar do Final Fight?
    Ele seria um bom vocalista para o AC/DC!

  3. Augusto Cesar Sarrea disse:

    Excelente texto, Diogão! Argumentos muito bem detalhados que devem fazer os “Die Hards” de ambos os vocalistas pensarem bem antes de explanar “quem foi o melhor vocalista” em suas intermináveis discussões! Particularmente, eu conheci VH com (Oh!) Pretty Woman em 1982 , mas foi com “Why Can’t This be Love” em 1986 que eu passei a gostar da banda! Daí, pra eu comprar todos os álbuns da banda foi um pulo! Hoje eu ouço os álbuns das duas fases da banda numa boa sem comparações! Afinal, como vc disse acima, nos dá a certeza que a alma da banda não é os vocalistas, e sim, o guitarrista e músico Eddie Van Halen! Valeu pelo texto, Diogo!! Parabéns mais uma vez!!!

    • Diogo Salles disse:

      Augusto, esse é o ponto: gostar, preferir, sem problemas. O que não precisa é diminuir o tamanho e a importância da outra fase.

      Esse especial foi só pra tentar mostrar o quanto os die hards podem se tornar estúpidos quando levam a discussão para essa direção.

      abs

  4. Eduardo Pinheiro disse:

    Mais um excelente texto Diogo! Eu adoros todas as fases do VH, inclusive a tão criticada passagem do Gary Cherone pela banda. Como você escreveu, hoje temos duas ótimas bandas para curtir (Chickenfoot e VH), e se um dia o Sammy voltar ao VH, tenho certeza que farão um trabalho excelente. É difícil imaginar que isso venha a acontecer, mas há alguns anos ninguém acreditava na volta do David. Eu tenho uma preferência pelas músicas com o David, mas reconheço o grande valor do Sammy, e gosto muito dos seus trablhos com e sem o VH.

  5. Diogo Salles disse:

    É isso aí, Edu. Van Halen com Sammy ou Dave são bandas diferentes, mas as duas são fantásticas, cada uma a seu modo. Até na hora de ouvir o clima é diferente.

    abs

  6. Érico Salutti disse:

    Concordo com o Edu, gosto de todas as fases da banda, até a fase com o Cherone.

    Acho uma pena essa divisão, que ainda que tentemos ignorar, existe. Há os xiitas de lá, e os de cá, e uma quase unanimidade sobre o Cherone, pouca gente gosta da fase VH3.

    Espero que um dia esses caras sentem e cheguem a um acordo, não para uma volta da banda, mas pelo menos para que tudo fique em paz.

    O Alex e o Eddie são muito rancorosos, e isso é algo que eu não gosto dele. Rancor é um sentimento que mantemos em relação ao outro por culpa de algo mal resolvido conosco mesmo. Uma dupla de gênios que tropeça no próprio ego, isso é uma pena.

    Abs.

  7. Diogo Salles disse:

    Érico, realmente Eddie e Alex são rancorosos e passionais em relação à banda. E isso os levou à autodestruição. Uma pena eles terem demorado tanto a perceber o erro, mas sorte que o fizeram a tempo.

    Sobre o disco com o Cherone, falarei dele no futuro aqui no blog, mas há um consenso entre todos os die hard fans: Van Halen é só com Sammy ou Dave.

    abs

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