Em defesa de David Lee Roth, contra os Redheads

Chegou o momento de falar de uma das brigas mais fratricidas da história do rock: Sammy Hagar vs. David Lee Roth. A “guerra” é pública, notória e irremediável — e o assunto domina 90% dos fóruns e sites relativos ao Van Halen na internet. “Qual é a melhor fase”, ou “qual dos dois é o melhor” e outras idiotices correlatas (como se essas questões não fossem meramente subjetivas). Ninguém fica de fora da “guerra”. Começando pelos dois vocalistas, que se dirigem um ao outro de forma desrespeitosa e arrogante. Passando pela imprensa, que “apaga” o fogo com gasolina. E terminando nos fãs, que se digladiam há mais de duas décadas pela coroa do hard rock. Sou tão fã de Sammy quanto de David, e nunca vi sentido algum nisso. Sendo assim, não vejo outra saída senão declarar guerra contra a “guerra”. Portanto, começo aqui apresentando a minha defesa do David contra os fãs xiitas do Red Rocker. No próximo post, farei o contrário. E que Deus… ou melhor, que Eddie Van Halen esteja convosco.

Desde que Roth voltou a assumir os microfones do Van Halen, tenho ouvido todo tipo de bobagem em relação a ele. Já ouvi falarem que a banda “só explodiu mesmo com o Sammy” e que Roth “deu a sorte de participar de uma das melhores bandas de rock do mundo”. Outro reclama que o Van Halen agora “entrou em decadência com a volta do estrelinha, exagerado e ridículo wannabe cool singer”, e pediu a volta de Sammy, “um sujeito boa praça bonachão” (para vocês verem o nível do personalismo em que a discussão chegou). Outro foi ainda mais longe, dizendo que o Dave “não é rockeiro, nunca foi e nunca será” e que ele “tem tudo a ver com o show business”.

Acreditando que, ao atacar David, estão defendendo o legado de seu ídolo, o braço mais radical da fanbase do Sammy mostra seus tacanhos conceitos do que é ser fã. Parte disso se justifica por, no Brasil, o Van Halen mais conhecido com Sammy. O que causa espanto é a quantidade de distorções, erros factuais grosseiros e a ignorância em relação à história de Roth e da banda. Portanto, cabe aqui uma aulinha sobre o legado e a marca que Diamond David Lee Roth deixou não só para o Van Halen, mas para todo o rock.

1) Roth foi um visionário. Foi ele quem sugeriu chamar a banda de Van Halen, enxergando que o nome poderia funcionar como o do grupo do guitarrista Carlos Santana. Era ele também quem criava e distribuía os flyers para a divulgar os shows da banda em seus “club days”. Isso sem falar desse logotipo maravilhoso, que tanto nos hipnotiza até hoje. Tudo criação da cabeça maluca e genial dele.

2) Antes de fechar o contrato com a Warner, Dave era “spokesman” da banda, por ser mais articulado que os outros (o Eddie, apesar de já ser gênio, era muito tímido). O que pouca gente sabe é que depois da demo bancada pelo Gene $immons, o Eddie e o Alex quase foram parar no Kiss — e isso só não aconteceu porque o Roth não deixou. Ele próprio relata esse episódio em seu livro Crazy From The Heat, onde se refere ao Simmons como um “carpetbagger”. E atenção fãs do Sammy: não sei se vocês notaram a ironia aqui, mas se não fosse pelo Dave, o Van Halen poderia nem ter existido e, por consequência, o Van Hagar também não.

3) Para os que são obcecados com supervendagens de discos e acham que “os números dizem tudo”, apresento-lhes os números da banda nos Estados Unidos: Van Halen I (1978) – 10 milhões de cópias / 1984 – 10 milhões de cópias / 5150 – 6 milhões de cópias. É bem verdade que foi só com Sammy que o Van Halen chegou ao topo da parada em todos os discos, mas eu não acho que uma banda seja melhor ou pior pelo número de cópias vendidas ou pelo número de hits #1. De qualquer jeito, fica aí o registro.

4) Ser ridiculamente pretensioso é parte do jogo de cena do Dave. Além de um grande cantor, possui uma veia cômica incrível. Não é um “wannabe cool”, é apenas “cool”. Ele pode ser o fanfarrão “bad ass” que cria as polêmicas com sua incorreção política e também o showman espirituoso, que faz a gente rir com seu sarcasmo e suas tiradas desconcertantes. É um entertainer nato. Agora pergunto: quantos artistas são ou foram premeditadamente caricatos? A lista é longa. Vejam do que Freddie Mercury foi capaz no clipe de “I Want to Break Free”, vejam Ozzy Osbourne ou o próprio Gene Simmons em seus reality shows estúpidos, vejam como se vestiam todos os heavy rockers dos anos 80. Aproveito o ensejo e faço aqui uma recomendação que vai corar os redfreaks: deem uma olhada no clipe da música “I Can’t Drive 55″, do Sammy Hagar em carreira solo.

5) Sim, David é mais showbizz que o Sammy, e não há nenhum demérito nisso. E isso também não quer dizer que ele não saiba fazer rock. Muito pelo contrário. David não só personificou o rocker dos anos 80 como foi extremamente influente. Foi ele quem criou aquela estética extravagante da banda, de cores berrantes, spandex e todos aqueles absurdos. Bom ou ruim, praticamente todas as bandas de hard/metal dos anos 80 foram atrás, copiando ou exagerando conceitos que o David inventou.

6) E para fechar (essa vai doer em alguns), as letras do David são mais sofisticadas do que as do Sammy. Seu vocabulário cheio de gírias, sua verve iconoclástica, suas citações, sua ironia e suas referências culturais proporcionam uma gama de assuntos mais rica. Diria que ele é uma espécie de Charles Bukowski do hard rock. Sua abordagem é imagética, cheia de labirintos, possibilidades e duplos sentidos. Já o Sammy centra seus temas em amor, sexo, mulheres gostosas, carros velozes, viagens para Cabo e fatos do cotidiano. Ambos têm seus bons e maus momentos na escrita e evoluíram bastante ao longo do tempo, mas o repertório do Dave é mais amplo e menos refém de clichês.

Enfim, para que entendam meu ponto, não há nada de errado em preferir Sammy ou Dave. Agora, preferir um, não implica necessariamente em desmerecer o outro. E antes que os redheads exijam a minha morte, peço que aguardem o próximo post, onde defenderei o Sammy contra os sociopatas do “Roth Army”… And the cradle will rock!

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15 Responses to “Em defesa de David Lee Roth, contra os Redheads”

  1. PattyBraga disse:

    Eu me abstenho de dar palpites por enquanto. Aguardo ansiosa pelo próximo post. #REDLOVE =)

  2. Eduardo Pinheiro disse:

    Excelente texto Diogo! Eu também gosto muito das duas fases do Van Halen, e não entendo esse radicalismo que foi criado entre os fãs. Eu me divirto com boa parte dessas brigas, mas alguns exageros não são admissíveis. Estou muito curioso pra ler o texto com a defesa do Sammy! Parabéns pelo post.

    • Diogo Salles disse:

      Edu e Patty, dizem que quando faço charges e textos sobre política eu sou CONTRA tudo e todos.

      Queria que essas pessoas me vissem aqui, sendo A FAVOR de tudo e todos do Van Halen.. :D

      abs
      Diogo

  3. Bruno Sampaio disse:

    Muito bom texto Diogo. Acho que cada um tem características próprias. O Roth é mais entertainer enquanto o Haggar é mais cantor, no sentido profissional mesmo. Independente disso as duas fases são ótimas. E não entendo porque uma coisa tem que anular a outra. Não é mais fácil curtir as duas fases?

    • Diogo Salles disse:

      Bruno, esse é o espírito: the best of both worlds.

      abs

    • Acho também as duas fases ótimas e cada uma tendo o seu valor e importância para a banda, mas o próprio Van Halen e o próprio David Lee anula a outra fase, desprezando a mesma desde que arrumou o emprego dele de novo … isso nunca foi feito em outras fases, nem pelo Sammy e nem pelo Gary … então eu creio que essa polarização é feita pelos próprios integrantes da banda e é claro que isso afeta os fans consequentemente … O Eddie é um dos principais culpados disso e na verdade o exemplo do que fez com o Mike é bem isso mesmo, discriminação, orgulho, falta de respeito pela história da banda e uma “babaquice” tremenda. O dia que alguém explicar com clareza e argumentos o que o Eddie fez com o Mike e porque, eu nunca mais toco nestes assuntos …

      • Diogo Salles disse:

        Caforio, eu também não gosto de ver que o David nem ao menos tentou colocar algo do Sammy em seu repertório. Há algumas razões para isso:

        1) ego. Ele acha que está acima das comparações com Sammy
        2) ele veio antes na história da banda e pôde usar isso como argumento (ainda que fraco)
        3) ele não tem o “vocal range” do Sammy, mas isso é assunto para o próximo post

        abs

  4. Augusto Cesar Sarrea disse:

    Muito oportuno o texto, caro Diogo! Também deve se levar em consideração que ambos os vocalistas, quando estavam na banda, diziam coisas como : O VH é a melhor banda do mundo, o VH é minha vida, eu amo estar nesta banda, etc, etc…e quando ambos estavam fora da banda, as críticas que faziam sobre o VH eram pra lá de ofensivas e negativas, tais como : no VH só tem louco, o Eddie acabou com a banda, o Michael Anthony é muito limitado, etc, etc…! Vou ser um pouco mais ousado no meu ponto de vista: [b] e se o VH , surpreendendo a tudo e a todos, chamasse de volta o Sammy e o Michael pra excursionar junto com a banda, tocando todas as noites os clássicos das duas eras, será que ainda existiria motivos para tanta troca de farpas? [/b] Valeu, Diogo…parabéns pelo texto! Aguardando o 2o. Round…rsrsrs!!!

    • Diogo Salles disse:

      Assim é o Van Halen, caro Augusto. Amor e ódio andando juntos, se confundindo.

      Sobre sua proposta, acho um tanto improvável, mas que seria sensacional, isso seria…

      abs

  5. Uma banda cheia de contradições! Isso é ótimo, nos alimenta de material para debates. De um lado um crooner turbinado, do outro um vocalista técnico e compositor superficial, e no meio de tudo isso um instrumentista genial. “this is rock’n'roll baby!”.

    • Diogo Salles disse:

      Gustavo, polêmica é o que não falta nessa banda. Mas a passagem do Gary Cherone em 1998 deixou uma lição para todos nós fãs (e até aos próprios músicos): Van Halen, só com Sammy ou David. O Eddie que se entenda com um deles… :)

      abs

  6. Deco Koy disse:

    Bom, deixo aqui a minha humilde opinião: Eu sempre digo que essa coisa de comparar David x Sammy não tem sentido. Pra mim, David funcionou bem no Van Halen para a época dele, e Sammy também funcionou bem na fase seguinte. Ambos tem talentos mas também defeitos, então não dá pra ficar comparando.
    Agora, o fato é que nos dias de hoje, se Sammy estivesse na banda, ele conseguiria cantar todas as fases do Van Halen, coisa que David não consegue fazer, seja pelo alcance vocal, seja pelo ego. Mas isso foi a opção que o Eddie escolheu e isso não temos como mudar ou influenciar. Se a banda queria resgatar as antigas demos, então faria sentido mesmo fazê-lo com David.
    Mas concordo com quem diz que hoje somos felizes porque temos David no Van Halen, e Sammy no Chickenfoot, ao mesmo tempo. Minha preocupação mesmo agora é saber se Eddie vai conseguir continuar excursionando depois da cirurgia.
    Abs.

  7. Diogo Salles disse:

    Deco, seu comentário está totalmente alinhado com a conclusão de meu post defendendo o Sammy Hagar.

    Preferências sempre vão existir, egos também. Meu trabalho aqui foi apenas rebater as injustiças lançadas por ambos os lados, travestidas de “opinião”.

    abs
    Diogo

  8. Augusto Cesar Sarrea disse:

    De volta aos comentários…rsrsrs!

    Guardadas às devidas proporções, essa história de “quem é o melhor vocalista” lembra a “guerra” travada entre os fãs de Ozzy Osbourne, Ronnie James Dio e Ian Gillan quando o primeiro saiu do Black Sabbath! Enquanto Ozzy era mais carismático pela sua presença de palco, Dio e Gillan eram mais técnicos pelo alcance de suas vozes! E o detalhe principal nessa questão é : SÃO TRÊS VOCALISTAS QUE POSSUEM SUAS PÁGINAS IMORTALIZADAS NA HISTÓRIA DO ROCK AND ROLL E DO HEAVY METAL!!!

    E, não bastasse isso, o Black Sabbath continua na ativa até os dias de hoje, a despeito do problema grave de saúde de Tony Yommi! E não podemos nos esquecer de que, quando Ronnie James Dio faleceu, os próprios Ozzy e Gillan publicaram notas dizendo o quão importante foi a presença de Dio nos vocais do BS, além de afirmarem veementemente que a “troca de acusações” entre os três vocalistas (e consequentemente, seus fãs), cada um em sua fase, foi uma das COISAS MAIS ESTÚPIDAS QUE OCORRERAM EM SUAS CARREIRAS, QUE ELES NÃO GANHARAM ABSOLUTAMENTE NADA COM ISSO E QUEM PERDEU REALMENTE FOI O ROCK E SEUS FÃS!!!

    Malmsteen X Steve Vai X Joe Satriani?
    Cliff Burton X Jason Newsted X Robert Trujillo?
    Ian Gillan X David Coverdale X Glen Hughes?

    Na boa, essa história de “quem é melhor” já torrou a paciência, né?

    Abraços à todos!!!

  9. Diogo Salles disse:

    Augusto, é verdade. Essas brigas aconteceram em várias bandas, mas nunca tão violenta como aconteceu no Van Halen.

    Outra que vi de perto foi a do Yes, entre os fãs do Steve Howe e do Trevor Rabin. Mas, de novo, tenho preferência pelo segundo, mas jamais deixarei de valorizar e gostar do do primeiro.

    abs