Fiona Apple ensina uma coisa ou outra às divas pop

> por Bruno do Amaral

É difícil enxergar sutilezas na música pop hoje em dia. Nuances, dinâmicas e detalhes têm dado lugar ao som empacotado para os minúsculos fones dos usuários de iPhone e equivalentes. Pode ser que isso seja algo passageiro, fruto de uma indústria fonográfica decadente, mas o fato é que artistas mais pasteurizados têm se dado melhor comercialmente. Fenômenos como Amy Whinehouse e Adele se mostram como as cantoras representantes de um suposto requinte frente às Katy Perrys da indústria. Mas aí chega a Fiona Apple, sete anos depois de seu último trabalho, e lança um disco desconfortável, agonizante e difícil, mas com um registro impressionantemente passional.

The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do é o título mais uma vez quilométrico do álbum de Fiona, já anunciando como a jornada será difícil para o ouvinte. Apesar de menos longo do que o segundo disco da cantora (When the pawn… é um poema por si só), tem um contraste enorme com os títulos dos mais conhecidos discos de Whinehouse e Adele, Back to Black e 21, respectivamente. Não que isso diga algo sobre a música, mas ilustra bem a situação.

Amy Whinehouse recebeu muita atenção por conta de sua voz distinta e influências retrô com black music, mas o fato é que ela parou de ser cantora para ser celebridade decadente. Sua morte anunciada e presenciada só serviu para consolidar sua figura trágica, mas isso pouco tem a ver com o som que ela fez. Como uma cantora, ela não se mostrou tão diversificada, limitando-se a uma sensualidade forçada pela rouquidão e atitude “tenho tattoo, sou perigosa”. Não havia atenção aos detalhes ali, era música pop travestida por uma produção direcionada à moda gangasta anos 30 compartilhada pelos Estados Unidos e Grã Bretanha no final dos anos 2000.

Adele veio na nova década, apostando em um foco oposto: mais piano, mas ainda investindo com uma voz blueseira. Chamou atenção também pelo visual: linda, mas acima do peso, ela era uma garota antítese da Whinehouse, com saúde, comportamento doce e uma voz mais potente. Engana-se, entretanto, quem enxerga sofisticação: apesar de centrado no piano, as melodias são simples, com baladas açucaradas para emocionar de forma rasa o ouvinte. Uma música específica do 21, chamada de “Don’t You Remember”, possui um arranjo mais country, lembrando algo que o Elvis em sua fase Las Vegas cantaria. Mas o predominante é uma música de corno, no sentido menos ofensivo: todas as canções são de coração partido na perspectiva de vítima com instrumental triste.

Fiona Apple não é vítima, ao menos não só isso. É algoz, é alguém difícil de se lidar. Como vantagem por ter começado cedo (ela tinha 18 anos quando o clipe de “Criminal” estourou na MTV nos anos 90), Fiona conseguiu uma maturidade artística logo em seu segundo álbum. Em vez de apostar em baladas como a bela “Never is a Promisse” ou “Pale September”, ela incluiu um solo de bateria na revoltosa “Limp”. No entanto, por melhor que seja, When the Pawn… foi fortemente influenciado pelo namoro com o diretor Paul Thomas Anderson (Embriagado de Amor). O terceiro disco, Extraordinary Machine, foi retrabalhado para extirpar a influência do parceiro e ainda amigo Jon Brion, perdendo um pouco de identidade. Finalmente, em The Idler Wheel, a cantora assume seu papel de psicologicamente instável. Como ela mesma falou em uma entrevista ao The New York Times, ela gosta de homem e, por conseguinte, de sexo. Ela sabe que é pirada, que é complicada, mas ainda insiste.

O disco é recheado de piano, mas as melodias e, principalmente os arranjos, não são fáceis. É preciso ouvir várias vezes para se acostumar com a bizarrice de músicas como o refrão gritado de “Regret”, ainda mais após um começo com uma voz mansa e aveludada. Ou em “Werewolf”, na qual Fiona reconhece que deu “a lua cheia” para o jeito em que saiu mordida pelo “lobisomem”. Ela é totalmente exposta em suas letras, mostrando vulnerabilidade, por vezes determinação, mas uma humanidade mais crível do que se passar por coitada, fatal ou caso perdido. O instrumental segue isso, explorando timbres de percussão tradicional ou de sons cotidianos, como uma máquina industrial de prensa ou, no caso de “Anything We Want”, um som quase de triângulo conseguido com um encanamento velho.

Em comum, Amy Whinehouse e Adele são britânicas incensadas pela mídia sensacionalista que tanto faz sucesso nas terras da rainha. Uma conterrânea talentosa, mas renegada no pop após perder o frescor, foi Joss Stone, que ainda hoje sofre algum preconceito pela beleza e por um suposto escândalo no qual teria dormido com um famoso produtor em troca de composições, que realmente deixaram a desejar após o segundo disco, Mind, Body and Soul. Já a norte-americana Fiona Apple fica na contra-mão de tudo isso, com uma sensibilidade ímpar nas letras, rebusco no instrumental e performance corajosa pela passionalidade. E, mesmo sem explodir nas paradas como suas colegas, mostra um vigor nos charts independentes com um álbum que mostra que a arte atinge o ouvinte, enquanto o produto pop atinge apenas a consumidores.

7 Responses to “Fiona Apple ensina uma coisa ou outra às divas pop”

  1. Nunca parei para ouvi-la, vou fazer isso. Alguns amigos já tentaram me catequizar pra ser fã dela, mas como eles tem um histórico de escutar qualquer barulho hipster não dei ouvido.

    • Rafael Fernandes disse:

      “como eles tem um histórico de escutar qualquer barulho hipster não dei ouvido”. HAHAHAHA!! Bela frase, Gustavo!

      Não sou tão fã quanto o Bruno, mas acho que a Fiona tem coisas bem legais. Vale uma ouvida atenta, ao menos para conhecer.

      Obrigado pelo comentário.

      Abs,

      Rafael Fernandes

  2. Bruno do Amaral disse:

    Não sei se ela tem apelo com hipsters, acho que ela foi mainstream demais para isso, apesar de já não ser há algum tempo. De qualquer forma, acho que vale a pena conhecer para pelo menos saber se gosta ou não. :)

    • Diogo Salles disse:

      Bruno, demorei para comentar aqui porque eu queria ouvir o disco, coisa que só consegui fazer ontem. E, de fato, é uma audição difícil, que vai na direção oposta à que ela trilhou no pop. Investe num clima meio jazzy autoral ainda mais fundo do que a Norah Jones, e cava um buraco negro no lado pessoal. Não é para todos os gostos mesmo. Mas é um trabalho muito bom, muito honesto e – não gosto muito dessa palavra porque ficou banalizada, mas aqui ela cabe – visceral.

      Contudo, acho que a Fiona se colocou num gênero diferente em relação às outras. Acho que tanto a Joss, quanto a Amy e a Adele se encaixam mais no gênero pop com voz soul e tempero R&B (sejam elas merecedoras do título de divas ou não).

      Se formos procurar o novo disco da Fiona numa loja (alguém ainda faz isso?), talvez ele se encontre na seção “World Music”… rss

      abs
      Diogo

      • Bruno do Amaral disse:

        Verdade, ela se distanciou um pouco do pop. Mas ainda acho que a história é mais em relação ao suposto rebuscamento desses pop da Adele e Amy, que se fingem de jazz/soul/R&B mas, na prática, é muito mais raso. Pra mim é meio como colocar o Green Day como punk rock, saca?

        E bom, comparando trabalhos anteriores, a Fiona colocou muita coisa pop com esses elementos jazzísticos e de blues antes sem querer apelar pra melodias mela-cueca. Sei lá, acho que existe uma entrega artística muito maior do que simplesmente fazer um disco com apelo pop e ser reverenciada como gênio pelo mainstream.

  3. Gusné disse:

    Achei bacana o texto. Entretanto, não achei “The idler wheel…” uma audição difícil, muito pelo contrário.
    Talvez, minha impressão se deva: ao fato de eu ser um fã incondicional da Fiona; aos sete anos de jejum(ops!) e pela minha decepção com “Extraodinary Machine”, que salvo por alguns bons momentos, considero o album mais fraco da Fiona.
    Reitero, “The idler wheel” não é uma audição difícil; pode até soar estranho a princípio, mas antes do album chegar à metade, vc já se sente a vontade em sua atmosfera freak.
    Fiona também está mais estranha… mas mesmo assim, continua ótima!!!
    Estou aguardando ansiosamente pelo show dela em SP. =)

    • Bruno do Amaral disse:

      Gusné, em geral eu concordo contigo (e sim, também estarei no show aqui em SP!). Mas tentei passar uma perspectiva um pouco mais “de fora”, para quem não necessariamente iria gostar de qualquer coisa que a Fiona fizesse.

      E sim, eu também me decepcionei um pouco com o Extraordinary Machine. Não pelo que ele é, mas pelo que poderia ter sido. E ainda acho que os arranjos do Jon Brion nas demos eram melhores, ou ao menos mais originais. Not About Love com aqueles violoncelos soava mais dramática e Better Version of Me tinha uma pegada mais orgânica.