“New Millennium”, Dream Theater | Geek musical - para musicólogos e musicólatras / Tungcast - o podcast que debate música em nível geek

“New Millennium”, Dream Theater

"New Millennium", Dream Theater

Ouça um trecho de “New Millennium”:

 

A música “New Millennium”, do Dream Theater, é a abertura do controverso disco Falling Into Infinity, lançado em 1997. Sua introdução é diferente de tudo que a banda havia feito, com um ar enigmático e etéreo, distante do clima bem pesado e com forte carga de metal do disco anterior, Awake. Mais do que isso: não era exatamente reconhecível, apesar de continuar virtuoso. E, durante toda a música, até mesmo o virtuosismo está mais contido, sem apelar para modismos ou estilos que a banda não conhece. Há uma aparente consciência de que a técnica e a velocidade não precisam ser tão explícitas, nem apresentadas a todo o momento. Ao contrário: quando colocadas na hora certa, se sobressaem ainda mais. A canção, em si, traz uma sonoridade mais próxima de grooves do que de peso – ainda que este se apresente. Há até um leve flerte com o rock industrial.

É um dos melhores registros do grupo, com boas melodias e um trabalho instrumental primoroso com riffs, licks e frases jorrando na música inteira – eles não param um minuto, é um vai e vem intenso. O ótimo trabalho de Kevin Shirley na produção do disco já fica evidenciado aqui: a escolha dos timbres, a construção sônica da música, a dinâmica entre os instrumentos, o espaço que cada um deles ocupa…tudo está muito bem encaixado, em seu devido lugar. Na gravação, o baixista John Myung toca um Chapman Stick, um instrumento diferente, executado com tapping (o “bater dos dedos” nas cordas) e que nos presenteia com uma sonoridade única. É apenas um dos detalhes de destaque desta música que, em termos de composição e arranjos, é um dos pontos altos da carreira do Dream Theater.

O guitarrista John Petrucci apresenta timbres bem escolhidos, mais discretos e macios. Mesmo sem perder sua pegada ou intensidade usuais, procura caminhos diferentes. Parece mais atento às variações da música, sendo agressivo ou suave, virtuoso ou preciso na hora em que é necessário. O vocalista James LaBrie também tem momentos contidos, numa altura vocal mais grave – o que é um ponto positivo, já que seu vocal estridente pode ser irritante e enjoativo.

Nos teclados, Derek Sherinian se destaca durante toda a música. Sua participação no grupo, por motivos diversos, me parece subestimada, já que seus timbres e ideias no disco são bastante interessantes. Em “New Millennium”, ele ora apresenta sons mais “industriais”, ora mais progressivos, mas sempre com ótimas inserções e inteligência. Mike Portnoy é um capítulo à parte. Embora seja um virtuoso, é muito mais um autor do que um instrumentista no rigor da palavra. E alguém já disse que ele era um baterista de rock/metal numa banda de progressivo. Faz sentido. Nessa música, fica provada sua qualidade nos arranjos: além de suas “assinaturas” rítmicas de sempre, mostra várias “frases” de bateria marcantes. Ele também é o autor da boa letra, que parecia um prenúncio das mudanças na banda no disco seguinte: “A sense of new beginning / I sense the wind of change” (Um senso de novo começo / eu sinto o vento da mudança).

Talvez por ser uma música diferente no repertório do grupo e por estar num disco quase renegado pelos fãs, “New Millennium” pode ficar meio esquecida. Mas não deveria: é um ótimo registro do rock progressivo. Tem as características básicas do estilo, mas com um ar fresco e moderno – por mais que essa palavra soe perigosa. Vale uma ouvida atenta.

7 Responses to ““New Millennium”, Dream Theater”

  1. Diogo Salles disse:

    Rafa, análise certeira.

    Esta música é um dos momentos mais brilhantes da banda, ao lado de “Blind Faith”. Não sou um grande fã de Dream Theater, mas quando eles privilegiam a composição e economizam na autoindulgência, fazem grandes músicas.

    Sobre os fãs odiarem o Falling Into Infinity eu nem comento. É a mesma situação quando o Metallica lançou o Load. Todo mundo chiou, mas ambos são excelentes discos, se ouvidos sem xiitismos.

    abraços
    Diogo

  2. Falling Into Infinity Nããããããooo!!! ehehheeh

    Mesmo com os argumentos dados para essa música, ainda fica muito estranho. Realmente não consigo ouvir nada de diferente que seja relevante para a música (tirando o fato que escuto muito mais o baixo do que em outras músicas).

    Eu realmente não gosto do disco. Como um conjunto completo ele é um ótimo teste para a paciência hehehehehe

    Mas valeu a tentativa. Gostei de ler sobre isso :)

    • Diogo Salles disse:

      Rhamses, então aqui vai a minha resposta a você: Black Clouds & Silver Linings = LIXO… hehehehe

      Mas sério, não consigo entender porque os fãs odeiam tanto esse disco. A produção é uma das melhores (senão a melhor) da carreira deles e o Derek Sherinian é realmente um cara subestimado dentro dessa banda.

      Tirando as baladinhas estúpidas (que todos os discos têm), músicas como esta “New Millenium” e “Trial of Tears” estão bem acima do que o que eles vem fazendo nos últimos anos.

      abs
      Diogo

    • Rafael Fernandes disse:

      Olhaí o Rhamses como a 1a prova da rejeição do disco pelos fãs. rs Vou escrever sobre ele no futuro, mas não espero te convencer. :P

      Valeu pelo comentário!

      Abs,

      Rafael Fernandes

  3. Tive que reouvir algumas vezes a música antes de vir comentar, hehehe.

    Uma coisa eu concordo com o Rafael: nessa música, em específico, o Dream Theatr está muito mais próximo do Prog na sua fase de transição (depois da segunda metade da década de 70 até o início dos anos 80) e muito distante do lado Metal que eles exploraram em “Awake”.

    Acho esse tipo de análise, fragmentando cada elemento em uma música muito boa, mesmo discordando de alguns pontos hehehe

    Como a gente bem sabe, o clima dentro do Dream Theater naquela época não era exatamente das melhores graças a interferencia da gravadora e tal. E sim, eu acho que o resultado em “Falling Into Infinity” é esse por todas as mudanças e pressões que os caras estavam sofrendo, fora a influência de Kevin Shirley.

    A introdução mais tranquila é até uma boa sacada, mas o equilíbrio de volume atrapalha em muito a audição da música: camadas e camadas de teclado lá no alto, junto com o baixo (e o Chapman Stick – que eu nem sabia que tinha sido usado), abafando as linhas de guitarra do Petrucci (aliás, os timbres e efeitos escolhidos pelo guitarrista é um outro fator que me desagrada bastante).

    Falando agora da bateria, Portnoy é realmente um maldito e sabe o que está fazendo, mas essa sonoridade “Metal americano da década de 90″ (ouçam o timbre da caixa) ficou meio deslocada na sonoridade mais vintage da música.

    Sobre James LaBrie, prefiro nem comentar. Mas acho uma das piores interpretações da sua carreira. Do sussurado ao esgoelado, fica a impressão que as melodias vocais não se encaixam em praticamente nenhum momento da música… O nível dele atualmente está muito acima dessa época, acredito hehe

    Mas enfim, pra acabar… vocês sabem que eu sempre prefiro os álbuns mais bizarros das bandas, e do próprio Dream Theater, prefiro de longe os trabalhos mais recentes.

    E sim, acho o “Falling To Infinity”, no geral, um álbum muitíssimo abaixo da média, em todos os aspectos: da arte gráfica às letras, passando por algumas ideias instrumentalmente bizarras (meu deus, se “Anna Lee” não é a pior música da banda, eu não sei qual é…)

    A gente discorda mas a gente se diverte, isso que importa HAHAHAHA

    Podem vir que eu já estou com a cadeira de plástico pronta pra tacar na costa de um

    Vida longa ao Geek Musical!

    • Rafael Fernandes disse:

      Rroio, valeu pelo comentário. É bom ver uma opinião contrária bem fundamentada. Mas vamos por partes:

      - Você matou 1/3 do meu post futuro sobre o disco. :P
      - Eu gosto bastante do som e mixagem desse disco, então sou suspeito para falar. E acho que a guitarra do Petrucci aparece mais só quando precisa;
      - Sobre o som da caixa do Portnoy: acho que é um problema geral dele, ele tem um som de caixa feio. Inclusive isso foi um dos motivos que levaram o David Prater à polêmica decisão de ter usado o recurso do “trigger” para substituir a bateria dele no Images And Words;
      - Não acho que seja e pior performance do Labrie, mas o que você citou acho que é apenas um reflexo do exagero das interpretações dele no geral.

      Como eu disse, voltarei ao disco no futuro e vou estar com as cadeiras de plástico preparadas…hehe

      Volte sempre!

      Abs,

      Rafael Fernandes

  4. Chico Milk disse:

    Falling foi o primeiro álbum que ouvi do DT, e lembro exatamente da sensação que tive ouvindo New Millenium. Foi arrebatador, e curti a banda de cara!

    Um tempo mais tarde, descobri de onde eles tiraram a ideia do riff marcante: Xanadu, do Rush. Na introdução da música, o Alex aproveita o clima do teclado e bateria pra fazer uma melodia usando um truque bem interessante e característico dele, usando o botão de volume para fazer as notas surgirem na música. Pouco depois, em mais ou menos 1:50 min, ele inicia o riff que provavelmente foi de onde o DT tirou a ideia para fazer essa música.

    Na minha humilde opinião, o melhor DT é o que deixa escancarado suas influências, pois não copia de forma barata, mas consegue inserir sua identidade musical naquilo que faz.

    Peruvian Skies é uma versão de Have a Cigar, do Pink Floyd com pitadas de Metallica. Solitary Shell é uma versão de Soulsbury Hill, do Peter Gabriel. The Great Debate é uma cópia descarada de Natural Science, e por aí vai.

    Isso sem contar as referências sonoras na guitarra. Tem muito de Steve Howe do Yes nas partes instrumentais de Metropolis PtI e de Dimebag Darrel ao longo dos álbuns Scenes From a Memory e A Train of Thoughts.

    Curti muito o podcast de vcs, e entendo que vocês tem uma visão mais de quem curte música, e não de músicos. Até por isso entendo porque vocês acham um exagero o final da Misunderstood. Pra alguns tipos de músicos, descobrir truques de pedais e de estúdio é um prato cheio, e lembro de ter lido algo sobre o final dessa música ter sido gravado todinho de forma reversa. O Petrucci gravou o solo normal, e o Portnoy deu a ideia de tocar ele ao contrário na gravação, e é o que ouvimos no álbum.

    Valeu galera, grande abraço, fiquem na paz e continuem firme, porque o trabalho de vocês é muito bom!