Circa mostra aos fãs brasileiros a nova face do prog


Billy Sherwood (esq.) e Tony Kaye (dir.) são a força criativa do Circa

Goste-se ou não da pomposidade do rock progressivo, sua qualidade musical não se questiona. O prog (para nós, íntimos) até já teve seus dias de glória, mas o gênero ficou aprisionado em seu passado e abriu caminho para o avanço do prog-metal. Acontece que, mesmo no gueto, o rock progressivo nunca deixou de se renovar. Só que em tempos de redes sociais e informação em tempo real, as novidades só chegam àqueles que pesquisam na web. Um bom exemplo é o Frost*, que está voltando à ativa. Outro é o Circa. Quem segue Billy Sherwood pelo Facebook, soube que ele montou uma banda junto a Tony Kaye (seu ex-companheiro no Yes) e soube também que eles viriam ao Brasil.

Quem esteve na quinta-feira passada no Bourbon Street, em São Paulo, pôde finalmente ver o Circa em ação. Formada em 2007, a banda já lançou três discos e amadureceu sem som, que lembra bastante o Yes em alguns momentos, mas que possui identidade própria. Em seus tempos de Yes, Sherwood e Kaye nunca tiveram muito espaço no meio de tantos talentos (e egos). No Circa, eles são o front, a força criativa da banda e têm toda a liberdade para mostrar suas habilidades e, acima de tudo, se desafiar musicalmente (coisa que o Yes não faz há algum tempo).

Se em estúdio Billy Sherwood é um músico multifacetado (cantando, compondo, produzindo e tocando guitarra e baixo), no palco, ele sabe se comunicar com os fãs, dar fluência ao show e abrir espaço para todos os músicos mostrarem serviço. A cozinha é tecnicamente perfeita, com Scott Connor (bateria) e Ricky Tierney (baixo), mas é o veterano Tony Kaye a grande atração da banda. Saindo da sombra de Rick Wakeman, ele mostra-se em forma e atualizado, dando uma amplitude ainda maior ao som do Circa e equilibrando momentos virtuosos e climáticos. Em diversos momentos, Sherwood se aproxima de Kaye e o convida para um rali de improvisações, fazendo dele co-estrela do show.

Ao vivo, é auspicioso perceber que o Circa privilegia as músicas mais progressivas de sua carreira. Destaque para “And So On”, “Brotherhood of Man”, “If It’s Not Too Late” e “True Progress”, que caíram no gosto dos fãs. E a banda sabe dosar de forma inteligente seu repertório próprio com músicas de diferentes fases do Yes — o suficiente para que os velhos clássicos não ofusquem o novo material. No meio do show, surge a ótima “The More We Live (Let Go)”, primeira música que Sherwood compôs ao lado de Chris Squire para o álbum Union (1991). Mais tarde, “Time And a Word” é resgatada direto de 1969, e a temperatura vai às alturas com o medley final “Roundabout/ Starship Trooper”, onde Tony Kaye tem mais um momento para brilhar.

Para os fã do Yes, tem sido difícil reconhecer que a banda se tornou prisioneira de seu legado e vive dias confusos desde a saída de Jon Anderson. Mais difícil ainda é aceitar que, em seu lugar, eles estão revezando vocalistas de bandas-tributo, transformando o outrora ícone maior do prog numa banda cover de si mesma. Ouvindo os discos do Circa e comparecendo ao show, fica nítida a sensação de que esta é a banda que continuou o trabalho deixado pela decana banda inglesa nos anos 90. Além das músicas já citadas, “Cut The Ties” (que encerrou o set em São Paulo) e “Cast Away” dão novo vigor ao gênero e apontam novos caminhos.

O Circa tem tudo o que uma banda progressiva precisa para cativar os fãs. O que falta agora é continuar trabalhando para torná-la mais conhecida entre os proggers. Depois do show gratuito em Votorantim (SP) na comemoração ao Dia do Rock, hoje é a vez do público carioca, que tem a chance de ver ao vivo a nova face do prog e tirar suas conclusões.

10 Responses to “Circa mostra aos fãs brasileiros a nova face do prog”

  1. Eduardo D. Paulo disse:

    Excelente análise do show do CIRCA…realmente um show excelente….músicos competentes e música com emoção….e que continuem este belo trabalho iniciado em 2007.

    • Diogo Salles disse:

      Realmente, Eduardo. Quando ouvi os discos, fiquei curioso em ver a banda ao vivo.
      Impressionante como eles executam bem suas músicas no show.
      E o velho Tony está detonando!

      abs
      Diogo

  2. Fernando Rossales disse:

    Muito boa a análise sobre o Circa! O Billy Sherwood é um grande músico, um sujeito muito talentoso. E é muito bom ver o Tony Kaye mandando ver. Pena estar tão longe e não poder estar presente nos shows. Mas quem mora perto e gosta de boa música é uma obrigação.

    • Diogo Salles disse:

      Fernando, bacana seu comentário. Acho que os proggers sentiam falta de novidades por aqui. Que bom que o Circa veio para tirar a poeira e dar uma renovada no ar!

      abs
      Diogo

  3. Anderson disse:

    Muito boa a resenha. O show de Votorantim foi o melhor de toda turnê!

  4. Muito bom artigo Diogo.

    Gostaria muito de ter visto eles em um ambiente fechado, mesmo pagando o ingresso, show de Prog tem que ser em casas pequenas e fechadas mesmo, fica mais intimista pelo menos. Em Votorantim foi uma boa apresentação mas o frio atrapalhou bastante.

    De qualquer forma Sherwood e Tony Kaye estavam impecavés, sabem como ninguém como fazer uma boa performance durante a apresentação.

    • Diogo Salles disse:

      Rhamsés, concordo com você. Casa fechadas e pequenas geralmente tem acústica melhor do que as outras, o que valoriza as performances dos músicos – ao contrário do pop/popularesco, que qualquer pracinha com umas caixas estouradas dão conta do recado.. hehehe

      Felizmente, o show do Bourbon Street foi o primeiro caso. Intimista e com som perfeito.

      abs
      Diogo

      • Eliton Tomasi disse:

        Oi Diogo, oi Rhamsés

        Preciso lembra-los que, originalmente nos anos 70, o Rock Progressivo era um estilo musical de grandes multidões. Yes, Genesis, ELP, etc, tocavam para estádios lotados.

        Ademais, o show de Votorantim contou com uma estrutura de som muito boa. Nao foi nada perto do seu comentário “ao contrário do pop/popularesco, que qualquer pracinha com umas caixas estouradas dão conta do recado…”
        Quem esteve lá (cerca de 1000 pessoas – o maior público dos três shows) pode comprovar.

        Quem prefere pagar pra ver uma banda num local pequeno, tem a opção de ir pra SP, Rio. Mas quem quer ver um show de qualidade e, o melhor, de graça, pode vir pra Votorantim.

        Ou será que estamos tão atados ao capitalismo que só o que é pago (e caro) é bom?

        Abs

      • Diogo Salles disse:

        Eliton, você entendeu errado o meu comentário. Disse que o progressivo pede uma acústica e equalização melhor do que o pop, pois o público é mais exigente. Sobre a acústica no show de Votorantim, não posso opinar, pois não estive lá.

        Mas de uma coisa eu sei: o show de Votorantim foi o que teve melhor público – assim como também deve ter tido o excelente o show de 2010 em Sorocaba, com Billy Sherwood, Banda do Sol e orquestra. Seria ótimo se iniciativas como essa de shows abertos (e de graça) fossem mais comuns.

        abraço
        Diogo