Faixa a faixa: Blunderbuss, de Jack White (2012)

Nesta semana, no Tungcast, tentamos desvendar o hype em torno de Jack White. A seguir, um “faixa a faixa” de Blunderbuss, seu recém lançado disco solo – um registro apenas médio. Um trabalho de alguém que ainda está tateando estilos em busca de sua identidade musical. E que já pode ser considerado o “disco superestimado” de 2012:

“Missing Pieces”Bom começo de álbum, com um piano elétrico bem colocado. Mas é uma canção pobre na harmonia: à exceção do final, repete a variação de (poucos) acordes. O solo de guitarra é mal construído e mostra toda a fragilidade de Jack White como guitarrista.

“Sixteen Saltines” – Um White Stripes mais pesado. Nessa música, fica claro como Meg White é uma péssima baterista. Com alguém decente comandando as baquetas, o instrumental se torna bem mais coeso. Mas, como o próprio White Stripes, tem o problema de se repetir: falta dinâmica à canção.

“Freedom at 21” – Um clima bacana, com um vocal próximo ao rap. Mas, de novo, a repetição atrapalha. Faltam à música melhores ganchos. Os falsetes são irritantes. Outro solo falho, com artimanhas de guitarra e pedais para tentar parecer virtuoso. A duplicação de guitarras com timbres e canais diferentes mais confunde do que interessa. Mas deve ter enganado muita gente.

“Love Interruption” – Boa canção pop. Aqui começa a aflorar um lado compositor de Jack White que não conhecíamos, preocupado em refinar os sons. Parece que quando ele se afasta do rock, da guitarra e busca a canção bem acabada acha boas coisas.

“Blunderbuss” – A melhor música do álbum, apesar de ter um estilo com milhares de exemplares por aí. Tem arranjo caprichado: os instrumentos vão e vem, dando à música dinâmicas e sutilezas que tanta falta fazem ao White Stripes. Parece uma tentativa de Jack White sair da pecha de indie e “de garagem” para virar um compositor mais definido. Ironia: um tipo de música com arranjo exagerado que seria taxada de brega e auto indulgente; que seria massacrada por lembrar algo de Led Zeppelin e do progressivo pelos indies e críticos mainstream. Mas, agora, eles aplaudem.

“Hypocritical Kiss” – Outra música pop muito boa, fecha a trinca das melhores faixas do disco, junto das duas anteriores. Novamente, uma ironia: uma música radio friendly, com teclado a la Queen, que entraria facilmente na programação de rádios soft rock: ou seja, tudo o que os indies mais detestam, o grande ídolo deles está fazendo.

“Weep Themselves to Sleep” – Música fraquíssima. Uma bizarra mistura de White Stripes, cabaré, com um vocal que parece o Lou Reed bêbado balbuciando ao microfone. Solo pífio, em que Jack White usa artificio semelhante ao de “Freedom at 21”: duas guitarras ao mesmo tempo, “engasgando” para dar a impressão de ser o virtuoso que não é.

“I’m Shakin’”- Música esquecível. Não sabe para onde vai. Tenta ter humor, mas fica apenas boba. Tenta ser blues “de raiz”, mas soa como blues de butique. Mais uma daquelas tentativas retrô de Jack White. Novas artimanhas na guitarra para tentar enganar o ouvinte.

“Trash Tongue Talker” – Piano Elton John com vocais White Stripes, envernizados com pseudo blues. Outra música descartável.

“Hip (Eponymous) Poor Boy” – Música ok, apenas divertidinha. Parece mais uma brincadeira, pinçando um ou outro clichê do blues. Fecha outra trinca com as duas anteriores – mas, agora, a das três músicas irrelevantes do disco.

“I Guess I Should Go to Sleep” – Outra boa música, voltando a mostrar a evolução do artista quando procura uma boa melodia, uma canção bem acaba com arranjos mais pensados. Jack White melhora quando sai da garagem e se aproxima das FMs.

“On and On and On” – Um clima interessante no começo, mas só isso. Se repete demais. Faltam força, personalidade e partes mais interessantes para ser uma grande canção. Soa como uma demo que deveria ser melhor desenvolvida.

“Take Me with You When You Go” – Um título que poderia ser do A-ha. Apesar disso, um encerramento digno. Outro bom arranjo, exagerado, mais próximo do glam rock do que do indie. O timbre da guitarra é aquele desleixo calculado típico de White Stripes – parece um amplificador estourado. O solo poderia ser bom se esse timbre esganiçado não atrapalhasse e, claro, se não faltasse, como sempre, fluidez aos fraseados. Será que White gosta de esconder suas falhas com esses timbres ultra saturados? O final épico parece um embrião de rock progressivo. Estaria ele descobrindo que há vida além da sujeira indie?

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11 Responses to “Faixa a faixa: Blunderbuss, de Jack White (2012)”

  1. Escutei o podcast, depois o álbum e achei que é bom. mordi a língua, acho que o que me chamou a atenção foi a quantidade de referências, já tinha lido alguns reviews que diziam que a sonoridade bebia da fonte de um tal de country gótico…diferente disso eu vi referências sonoras bem mais próximas do mainstream¹ de álbuns clássicos como: exile on mainstream², goodbye yellow brick road, blonde on blonde as letras também fisgaram minha atenção mais de uma vez (e eu escutei limpando a cozinha). na verdade o que faltava pra ele era cair na mão de um produtor maduro, o que vai ser difícil porque ele está sempre envolvido com muitas coisas ao mesmo tempo, o cara parece que não tem paciência pra se trancar no estúdio até sair um álbum bem fechado.

    • Rafael Fernandes disse:

      Gustavo, esse é um disco que me surpreendeu positivamente, também. Concordo com você 3 vezes: há muito mais referências do mainstream, faltava um produtor decente e, realmente, parece que JW não tem paciência de burilar um disco.

      Abs e volte sempre,

      Rafael Fernandes

  2. Marina disse:

    Cara, essa doeu… “I’m Shakin” esquecível, boba e blues de boutique? É um cover de Little Willie John… Dói ver todos os comentários adorando o Jack White e tal… Mas essa música é ótima! http://www.youtube.com/watch?v=qWRjus3end4

    • Rafael Fernandes disse:

      Marina, eu acho uma música boba, esquecível, chatinha – e repetitiva, como muitos desses tipos de blues. Só porque é um blues antigo não significa que seja boa nem que eu tenha que gostar. Falamos mais disso no Tungcast Jack White. E a interpretação de Jack White soa, sim, como blues de boutique.

      Rafael Fernandes

  3. Miguel Salgado disse:

    Péssima critica… Pouco construtiva, irrelevante, que mostra, única e exclusivamente, a opinião pessoal do “critico”. Visto ser de Portugal e um português com grande e vasto conhecimento da língua, fico chocado e aterrorizado com a falta de conhecimento ortográfico, coloquial e informalmente banal neste artigo por parte do chamado “critico”. Posso concluir que o exposto não passa de uma afronta a um trabalho digno musical, isto dito por parte de um músico bastante ecléctico, coerente e com uma mente aberta. Obrigado.

    • Rafael Fernandes disse:

      Miguel,

      O texto é assinado por mim, então é óbvio que é minha opinião. Não é uma reportagem. Não sei qual é a dificuldade das pessoas entenderem o conceito de crítica, achando que deve ser “imparcial”. Opinião *É* parcial.

      Você diz que é um texto pouco construtivo, mas se preocupa menos em contra argumentar e mais em se auto-congratular. Não vou alimentar seu narcisismo. E é tão irrelevante que você se deu ao trabalho de comentar.

      E eu, felizmente, não sou eclético, tenho critérios.

      Só mais um detalhe. Acho que você não conseguiu entender, então eu te explico: os textos deste blog seguem uma linha coloquial em português BRASILEIRO. E não de Portugal.

      Rafael Fernandes

  4. paula disse:

    A música que mais me chamou a antenção foi Blunderbuss. Muito bem definida como tendo “um estilo com milhares de exemplares por aí”. Me lembrou bastante o trabalho da Karen Elson, ex esposa do Jack.

  5. Rafael Fernandes disse:

    Olá, Paula, obrigado pelo comentário. “Blunderbuss” tem um estilo parecido com outras música, mas é muito boa.

    Abs,

    Rafal Fernandes

  6. Caio disse:

    Melhor critica que já li, A MAIS HONESTA E SINCERA!

    Considero um dos musico mais superestimado, quase um guitar hero para jornalistas.

    Não que seja ruim, mas não é o melhor do melhor, um gênio em ascenção, qualquer coisa do tipo, é apenas: Overrated.

    E todos que digo isso sempre me lembram, “ah, mas ele tem um dvd com jimi page…” ¬¬

  7. Lucas disse:

    Cara, primeira critica realista que leio sobre esse cara..

  8. Rafael Fernandes disse:

    Lucas e Caio, obrigado pelos comentários. Bom saber que não estou sozinho nessa.

    Caio, você definiu bem: “é apenas: Overrated”. Quanto a esse vídeo, só temos a lamentar terem colocado ele ao lado do Page. Provavelmente foi uma decisão comercial e não artística.

    Abs,

    Rafael