Considerações sobre Amy e Adele

Num comentário deixado no Tungcast#053: As piores músicas de todos os tempos, o ouvinte Dario Souza da Silva levantou uma questão interessante para nós, geeks musicais. Acho que vale a pena reproduzir aqui e depois comentar:

“Gostaria de saber a posição de vocês sobre o endeusamento das cantoras Amy Winehouse e Adele. Essa última principalmente.”

Bom, sobre a Amy, é preciso analisar em que contexto ocorreu a sua morte. Vejamos:

1) colocar a Amy no “clube dos 27” e dar o trabalho por encerrado é de uma preguiça jornalística de dar medo. Aliás, só a ideia do “clube dos 27” é um engodo, visto que o único membro do “clube” com quem ela guardava alguma similaridade era a Janis Joplin;

2) todo mundo se torna “mito” e/ou a “maior cantor(a) de todos os tempos” depois que morre, mas, no final, é o legado que conta. Amy teve méritos por fazer um resgate do soul e do R&B e tinha talento como intérprete e compositora, mas não soube usá-lo para construir uma discografia sólida. Basta lembrar que depois do aclamado Back to Black(2006), Amy abdicou da carreira. E depois abdicou de sua saúde ao recusar tratamento. Com isso, deixou de ser vítima do vício para tornar-se escrava dele, definhando por cinco anos até a morte;

3) pessoas que, após a morte, correram para comprar CDs e baixar todas as músicas da Amy não são fãs. São retro-consumidores de sensacionalismo. E muitos daqueles que agora lamentam que ela tenha recusado tratamento são os mesmos que se divertiam ao vê-la chapada, agonizando em praça pública;

4) a gravadora rejeitou aquele que seria o próximo disco da Amy provavelmente por tê-lo achado ruim, mas agora esfrega as mãos por considerar esse material “ruim” uma mina de ouro.

Sobre a Adele, o buraco é mais embaixo. Sim, é talentosa e mereceu os Grammys e todo o sucesso. Compôs suas próprias músicas (algumas muito boas) e teve coragem de se expor em letras autobiográficas, em vez de usar covers como muletas — prática bastante comum entre artistas iniciantes. Agora, um sucesso estrondoso como esse também traz suas consequências. No caso dela, podemos enumerar os seguintes problemas:

1) o megasucesso do disco 21 ajudou-a a estourar em todas as partes do mundo, mas essa exposição ostensiva também causa um efeito contrário. Fala a verdade, alguém ainda aguenta ouvir “Rolling In The Deep”, “Set Fire to the Rain” e “Someone Like You”?;

2) fato: ela não conseguirá repetir o mesmo sucesso no próximo disco. Não que não seja capaz de compor novos hits, mas um sucesso intergaláctico como este só se consegue uma vez na vida, porque ele é fruto de uma junção de vários fatores que fogem do controle do artista (Michael Jackson não me deixa mentir);

3) ainda não se sabe como Adele reagirá como compositora frente ao sucesso. Em seus dois primeiros discos, ela tinha como tema central os pés-na-bunda que levou de seus namorados. Só que agora não vai adiantar nada levar outro pé-na-bunda e repetir o script. A fórmula está gasta. Está na hora de ampliar o leque, de arriscar. Ou ela muda de direção, ou se tornará refém do personagem que virou e morrerá como autora (quem sabe a maternidade lhe sirva de inspiração);

4) pelo que se comentou, seus péssimos hábitos (entre eles, o cigarro) causaram problemas sérios em sua voz a ponto de ela ter de fazer uma cirurgia nas cordas vocais. Com tão pouca idade, é um sinal de alerta. Ela precisa se cuidar e reaprender a cantar de uma forma que não afete suas cordas vocais. Caso contrário, descerá a ladeira.

Bom, é isso aí. Claro que o endeusamento é exagerado, mas ambas têm o seu valor.

9 Responses to “Considerações sobre Amy e Adele”

  1. Bruno do Amaral disse:

    Claro que nenhuma delas chega aos pés de Fiona Apple, que tem voz, discografia sólida, criatividade e continua lançando coisas. Ah, e não, não tem nada a ver com a aparência dela. :P

  2. A indústria do Hype é em boa parte responsável pelo “endeusamento”, o fato de elas terem talento genuíno dá credibilidade à declarações da mídia e de formadores de opinião.
    Acredito, na minha humilde opinião, que poderão ser consideradas “deusas” alguns anos à frente se realmente exercerem uma influência notável na música, ou até no comportamento das pessoas (Michael Jackson não me deixa mentir).

  3. Diogo Salles disse:

    Bruno, obrigado pela trollada :P
    Cada um com a sua deusa, certo? E a Joss não é só beleza. Mas deixo aqui o convite para você escrever sobre a Fiona Apple no nosso mural. Aguardamos o seu e-mail.

    Gustavo, tudo no pop é exagerado, inclusive – ou melhor, principalmente – na parte de divulgação do artista na mídia. Para nós, o endeusamento é exagerado (imerecido até), mas para o grande público faz total sentido.

    abs
    Diogo

  4. Bruno do Amaral disse:

    Opa, olha que eu envio um texto sim. Mas a cutucada não foi pela Joss (que eu também gosto muito desde o primeiro disco), mas pq uma vez você me disse que eu só poderia gostar da Fiona por conta de achar ela bonita.

    Enfim, a Fiona acabou de lançar um cd novo. Vou digerir um pouco mais e aí mando o texto pro mural.

    Abs

    • Diogo Salles disse:

      Bruno, pode mandar. Não era brincadeira, não.

      Quando que eu disse que você curtia a Fiona só pela beleza? Não lembro disso, não.. rss

      Ah, não nos esqueçamos também da Norah Jones!

      abs
      Diogo

      • Bruno do Amaral disse:

        Sei lá quando, fui um dia aí. Mas vou fazer sim, pode deixar.

        Sobre a Norah Jones, confesso que não a conheço muito. Mas tem algumas que eu gosto, como a Carina Round (recentemente apadrinhada pelo Billy Corgan).

        Ah, e tem a Karen O, que é meio que um Jack White de saias e franjinha ridícula. Mas tem coisas legais, como a cover de Immigrant Song com o Trent Reznor e aquela música Maps, com o Yeah Yeah Yeahs.

  5. Não acham que a internet deu um gás nesse super endeusamento das duas. Claro que o talento ajudou mas será que a facilidade de se conseguir divulgar sua música pra uma imensidão de gente pela internet não foi o motivo desse sucesso todo?
    E concordo com você quando diz que Adele dificilmente repetirá o mesmo sucesso no próximo disco.

    E quantos discos elas tem lançado? 2 cada uma?

    • Diogo Salles disse:

      Thiago, a internet ajudou a alastrar o fogo mais rápido, mas os downloads diminuíram as vendas, se compararmos com “Thriller” do MJ.

      Sim, 2 discos cada uma. Coincidência ou não, “Thriller” também era o segundo disco solo do MJ. Acho que tem a ver com o fator novidade também. Depois os artistas viram prisioneiros do que criaram.

      abs
      Diogo

  6. Dario Souza da Silva disse:

    Concordo com a análise!

    Acreditam que só hoje eu vi esse post? hehehe

    Me mudei pra uma cidade mais afastada e passei uns tempos sem internet!

    O interessante é que faz tempo que não ouço falar na Adele.