Os Grãos, Os Paralamas do Sucesso (1991)

Os Grãos, Os Paralamas do Sucesso (1991)

O ano de 1991 foi estranho para o Brasil. A nefasta era Collor deixava um clima de desconfiança no ar. Se o momento não era propício para a economia em geral, imaginemos, então, o que sofreu a indústria do entretenimento. Esse cenário influenciou, por exemplo, os rumos da carreira d’Os Paralamas do Sucesso, uma banda já estabelecida na época. Seu lançamento daquele ano, Os Grãos, teve uma das piores vendagens do grupo. Em consequência, o trio intensificou o trabalho por um espaço nos países vizinhos, em especial na Argentina.

Era também um momento de mudança pessoal para Herbert Vianna. O líder do grupo ficou anos na fossa por Paula Toller (vocalista do Kid Abelha), período que rendeu clássicos como “Quase um segundo” e versos fortes como “eu te odiei uns dias, eu quis de matar” (de “Uns Dias” – ambas as músicas do disco Bora Bora). Mas ele começava a achar equilíbrio pessoal com Lucy, que se tornaria sua esposa naquele ano (se conheceram em 1989). Inclusive, por ser o principal compositor do trio, o clima das músicas e temas das letras parecem demonstrar a busca por equilíbrio. E, também, reflexões sobre o que vivia. Pegue, por exemplo, “Tendo a Lua”. Segundo a biografia do grupo, Vamo Batê Lata (de Jamari França), a letra foi feita a partir de frases de bilhetes de Tetê Tillet, uma ex namorada de Vianna e Barone. Os complementos de Herbert, que deram cara e sentimento à música, pareciam sair de sua vivência: “Eu hoje joguei tanta coisa fora. Eu vi o meu passado passar por mim.”

Herbert Vianna na turnê de "Os Grãos" (fonte: site oficial)

Nos arranjos, o clima e as intenções de Os Grãos pareciam um fluxo natural na discografia de Bi, Herbert e Barone. Depois do sabor caribenho de Bora Bora e da mistura de ritmos de Big Bang, era esperado que o passo seguinte fosse mais rock, seco e sombrio. Apesar de momentos como “Carro Velho” e “Sábado”, que poderiam muito bem estar em seus dois lançamentos anteriores, o clima é escuro, como o encarte do disco. O trabalho é mais direcionado a boas canções pop, sem a preocupação de ter que incluir influências de reggae e música brasileira, como vinha sendo feito. E como o próprio Herbert admitiu, na mesma biografia, o disco soou diferente também por uma dificuldade interna: “(…) como banda, como relação, não foi o nosso melhor momento(…)”.

De fato, não é um disco todo brilhante, mas, em certa medida, subestimado – talvez incompreendido. A crítica da época reclamou, entre outras coisas, das supostas participações tímidas de Bi e Barone e “falta de ‘brasilidade’”, como se uma banda tivesse que se prender à mesmice. No primeiro caso, apesar da banda ter feito um mea culpa anos depois, acaba sendo um equívoco. Barone tem ótimos momentos: ouça a precisão de “Track Track” e “Sábado” e a elegância de “Tendo a Lua”. E Bi apresenta suas linhas de baixo marcantes, em especial em “Sábado” e “O Rouxinol e a Rosa”. Como destacado antes, a mudança de rumos musicais era lógica e saudável. Uma banda não pode ficar se repetindo disco após disco.

O álbum tem duas das melhores músicas do grupo: “Sábado” e “Tendo a Lua”. Também tem duas ótimas baladas, meio esquecidas: “A Outra Rota” e “Vai Valer”. Ainda há espaço para “Dainos”, “Não Adianta” e “Trinta anos”, que se não tem grandes achados, são boas canções pop. Esse lançamento de 1991 é uma amostra da evolução de Herbert Vianna como compositor, com letras e músicas mais maduras. E trabalhos de guitarras muito bons, com destaque para as bastante citadas aqui “Tendo a Lua” e “Sábado”, além de “O Rouxinol e a Rosa”. Por outro lado, por ter uma intenção mais densa, é um registro que evidencia ainda mais sua fraqueza como vocalista. Os Grãos também indica, em especial na faixa-título e em “Tribunal de Bar”, o caminho mais experimental que os Paralamas iriam seguir no disco Severino, de 1993. Mas essa já é outra história.

Nota do autor:
Ouça os Tungcasts “Discos Subestimados”, parte 1 e parte 2.

3 Responses to “Os Grãos, Os Paralamas do Sucesso (1991)”

  1. Interessante, nunca havia escutado nada desse álbum, é ótimo.

  2. Análises de discos para mim é o tipo de matéria mais interessante, especialmente discos que eu não estou familiarizado.

  3. Albert disse:

    Este disco é excelente! Considero uma grande injustiça o que a crítica fez com ele à época. Injustiça esta que o tempo começa a reparar quando vejo serem reeditadas em shows canções como Maria Maria, Vai Valer, O Rouxinol e a Rosa e A Outra Rota – quando ouço alguém citá-lo como referência, ou quando o público mais jovem, que não foi atingido pela crítica da época, o ‘descobre’ e manifesta sua predileção por este trabalho. “Tendo a Lua”, sem exagero nenhum, posso colocá-la facilmente em qualquer lista com as 10 melhores músicas do Rock Brasil de todos os tempos.