Geeks musicais unidos contra a ditadura axé-sertaneja

Para inaugurar este espaço que chega para preencher o ideário de musicólogos e musicólatras de plantão, começo com uma digressão. Ou melhor, duas: 1) certa vez me perguntaram se eu já tinha feito terapia ou análise [nota: não sei dizer se isso era uma indireta]; e 2) noutra discussão, dessa vez entre os escribas do Digestivo Cultural, o amigo Guilherme Pontes lançou a pergunta, entre cafés, chocolates e guloseimas mil: qual é o seu combustível quando escreve? Duas incógnitas, uma solução: a música. É o meu combustível e também uma forma de manter a mente sã.

Tanto para a escrita quanto para as minhas maquinações cartunescas do dia, preciso de espaço — e quem trabalha em redação de jornal sabe que isso pode ser um problema. É muita distração nesse recinto. Telefones tocando, celulares berrando musiquinhas irritantes, gente falando no viva-voz, conversando alto, gritando, brigando, espirrando, rindo… Sinceramente, não dá para raciocinar ou elaborar nada no meio dessa poluição sonora. Só sai alguma coisa se eu colocar o fone de ouvido e ensurdecer diante desse caos. E é a música que me transporta para outra dimensão, um lugar onde posso criar.

Lendo isso, muitos podem achar que talvez eu deva mesmo fazer terapia, mas eu prefiro ficar com a musicoterapia. A boa música é uma arte que resiste ao tempo e deve ser preservada. Uma arte que não domino, mas pela qual sinto a mais profunda admiração. Um mundo onde monto meus playlists e formulo meus conceitos musicais. Rock, hard rock, progressivo, metal, blues, fusion, jazz, soul, R&B… Música de verdade, não Michel Teló, que é um produto embalado para consumo (falarei disso outro dia). Acontece que a música, este santo remédio, também tem o seu efeito colateral: o mau humor. Marchinhas de carnaval me entediam, dancinhas coreografadas do tipo “Macarena” ou “YMCA” me constrangem e hits popularescos me dão asco. Eu não gosto deles, eles também não gostam de mim. E assim caminhamos em busca de um mundo mais justo. Gosto de debater música com quem a valoriza e a reconhece como arte, e não com quem ouve música com a bunda (ou com o chifre). Chato, eu? Não, geek musical.

Foi-se o tempo em que o geek musical era um mutante que tinha de viver escondido em cavernas, para não ser fuzilado pelas patriotadas politicamente corretas dos falsos ecléticos. Foi-se o tempo em que tínhamos medo de sermos trucidados por esta ditadura imposta por pagodeiros, axézeiros e sertanejeiros. A internet é o meio por onde mutantes e geeks puderam cavar suas trincheiras. Se eu queria discutir arranjos, melodias, riffs, solos, discografias, tudo o que eu tinha a fazer era achar um paciente tão enfermo quanto eu para desanuviar essa patologia. E assim foi feito. Diagnosticado com sintomas semelhantes, Rafael Fernandes topou a ideia de criar debates musicais em nível geek. Primeiro com o Tungcast, agora com o Geek Musical. E você, que coleciona CD’s e vinis, toca air guitar e se veste com camisetas de bandas, está convidado a fazer parte disso. Ou melhor, está recrutado.

De agora em diante, favor comparecer regularmente aqui ao nosso aparelho de resistência à ditadura axé-sertaneja. Aqui, os geeks musicais sempre encontrarão abrigo.

4 Responses to “Geeks musicais unidos contra a ditadura axé-sertaneja”

  1. Eduardo Pinheiro disse:

    Diogo,
    Gostei da idéia. Certamente serei um visitante frequente deste blog.
    Um abraço

  2. Vinicius disse:

    Ufa! Pensei que jamais acharia um lugar para ler linhas bem escritas sobre música… Hoje proliferam blogs toscos, com textos que desafiam até mesmo a gramática das ruas e opiniões tão rasas que não raro sequer podem ser entendidas. Obrigado!

    P.S.: sim, eu sei que poderia ter comentado em um post mais recente, mas me identifiquei tanto que preferi comentar aqui neste manifesto.