Celebrando o fim do White Stripes, o Teletubbies do rock

Dois mil e onze ainda está longe de acabar, mas a grande notícia do ano no mundo da música aconteceu lá em fevereiro: o fim do White Stripes. Seis meses se passaram e foi uma experiência das mais agradáveis observar o rock recebendo essa lufada de oxigênio. Melhor ainda foi ver indies e hipsters chorarem feito emos (uma cena memorável, memorável!). Esse fim do White Stripes tem um significado enorme para os verdadeiros amantes de música. Afinal, como sabemos, de todas as farsas hypadas pela crítica musical, o White Stripes foi, até hoje, o golpe mais baixo. Mas nem vou perder meu tempo desmascarando-os, pois Rafael Fernandes e Mario Marques já fizeram isso. Estou aqui só para fechar o caixão e estourar o champanhe, sem esconder o sorriso no rosto… :D

De todos os pseudo-hypes empurrados pela imprensa indie, o mais desonesto e repugnante é o de que Jack White seria um “guitar hero”. Essa é provavelmente uma das maiores fraudes da história da guitarra desde Les Paul (que Deus-Hendrix o tenha). Jack White não chega nem a ser um guitarrista mediano e o filme A Todo Volume (It Might Get Loud) se encarregou de mostrar isso. A cena em que Jimmy Page e The Edge tentam acompanhá-lo naquele garrancho de música já foi constrangedora o bastante e falou por si. Já de Meg White nem vale a pena falar porque dá até dó. Meg White é tão ruim, tão desgraçadamente ruim, que é seguro dizer que ela é a pior baterista do mundo. De longe. Tão longe que o segundo pior baterista do mundo (quem quer que seja ele) não sai nem na foto.

A discografia da banda mostra uma limitação musical que, confesso, eu jamais tinha imaginado possível (e olha que já escutei muita coisa ruim nessa vida). É tanto audível quanto risível que o White Stripes não trabalha — e muito menos retrabalha — suas composições, deixando claro que a primeira coisa que surgir num ensaio já é o produto final que vai aparecer no disco. Nunca lhes passou pela cabeça coisas como melodia, harmonia, arranjo, solo… A “música” deles nada mais é do que uma sucessão de riffs macarronicamente empilhados e em total descompasso com a “bateria”.

Mas aí veio a grande sacada de Jack e Meg White. Diante de tamanha falta de talento e de recursos musicais tão parcos, eles precisavam forjar uma estratégia para vender seu “produto”. Primeiro, lançaram o formato guitarra-bateria como ousado e inovador (“tipo assiiim, meeega descolado, tá inteindêindu?”). Depois “deixaram” que se criasse um clima misterioso entre eles dois. E, por fim, reembalaram o conceito do “quanto pior, melhor” e venderam-no à imprensa cultural, que engoliu tudo de maneira absolutamente acrítica. Pronto, assim nasce um criadouro de fãs ávidos por consumir o “produto” para se sentirem “moderninhos”. Um bom exemplo para ilustrar esse triste e aborrecido quadro é o “show de uma nota só”. Quem aplaude aquilo, é capaz de aplaudir dois macacos torturado um berimbau.

Contudo, devo reconhecer que, dentro da estratégia mercadológica em que se embrenharam, eles foram mesmo geniais. O Uáite Estráipes é um fenômeno de marketing. Uma máquina de criar modismos. Reside exatamente aí todo o equívoco das discussões envolvendo a banda. O correto seria analisá-los no contexto da publicidade, da moda e do comportamento — nunca, jamais, sob qualquer hipótese, pela música. Se o “produto White Stripes” fosse vendido em brechós e feiras hipster, nas passarelas da Fashion Week ou até mesmo num reality show, faria total sentido. Agora, analisá-los como alta cultura e rotulá-los como vanguarda musical é patético. Assistir a isso por anos a fio era como ver um Teletubbies do rock ‘n’ roll animando uma plateia de crianças em sua primeira dentição. Claro que respeito o direito das pessoas consumirem música como papel higiênico… Mas que foi constrangedor, isso foi.

Agora que a festa acabou, chegou a hora de encararmos os fatos: musicalmente, White Stripes é lixo, e seus fãs que cresçam e aprendam a conviver com isso. E entendam, de uma vez por todas: não há nada de genial numa banda só com guitarra e bateria. A ausência de baixista é apenas o resultado de um infeliz encontro entre a mediocridade e a preguiça.

Mas os fãs não precisam se desesperar, pois é certo que o White Stripes se reunirá daqui a uns 5 ou 6 anos para uma turnê (caça-níqueis, obviamente), regurgitando seus “clássicos” e lançando novas “tendências”. Resta saber qual será a recepção dos hipsters que passaram a última década aplaudindo-os. Se tiverem evoluído seus conceitos musicais, ficarão ruborizados — da mesma maneira que os fãs atuais do Justin Bieber o renegarão daqui a um ano ou dois.

Outra dúvida é saber se os hipsters de amanhã (que hoje curtem Restart) terão paciência para aturá-los. Talvez a melhor solução para essa turnê vindoura seja a de que todos os shows tenham uma nota só. Se Jack e Meg White escolherem uma boa nota (e não errarem o tempo ao tocá-la), pode rolar o maior hype.

* este texto é uma reprodução do original, publicado por Diogo Salles em seu blog Trágico e Cômico em 14/08/2011

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