> por Francisco Del Rio (empresário, libertário e libertino)
Qualquer tipo de política deveria ser analisada fundamentalmente por seus resultados, não por suas intenções. Ponto. Podemos enumerar centenas de fracassos perpetrados por políticos de qualquer orientação ideológica simplesmente por não compreenderem — ou não quererem compreender — que as leis da economia não ligam a mínima para as leis dos homens. A economia é menos como um carro, e mais como um organismo vivo. As bilhões de pequenas e grandes interações entre todos os milhões de agentes econômicos faz da economia um fenômeno orgânico, que sempre irá obedecer suas próprias leis naturais e não tomará conhecimento de malabarismos legislativos e bravatas populistas. Fossem respeitadas, essas leis nos livrariam de uma horda de comunistas de boutique.
Mas a famigerada lei da meia-entrada merece menção honrosa nesse quesito, por ser o exemplo mais gritante do quanto tais políticas “Robin Hood” simplesmente não funcionam — e como se não bastasse, acabam por gerar um efeito reverso, agravando os problemas para os quais elas foram desenhadas como solução. A intenção por trás desse artifício (excluindo, evidentemente, a motivação eleitoreira de políticos e a motivação financeira da UNE), é tão clara quanto ingênua: facilitar o acesso dos menos abastados a eventos culturais em geral. Mas e os resultados?
O primeiro efeito colateral da lei da meia-entrada é que ela dificulta o planejamento de qualquer evento ou negócio sujeito a essa regra. Dessa forma, torna-se muito mais complicado elaborar orçamentos, o que por sua vez irá acarretar em maior dificuldade para obtenção de patrocínios, agendamento de datas, reserva de locais, etc. Qualquer um que já tenha se prestado a organizar um mísero churrasco sabe do quanto é essencial ter uma mínima projeção de receita.
Isso não apenas desestimula a criação de novos eventos, como dificulta o surgimento de novas empresas neste mercado. Por disporem de menos recursos, tem menos “bala na agulha” para suportar o caos no planejamento e os prováveis problemas orçamentários decorrentes disso. Esse cenário favorece a existência de um oligopólio, deixando o mercado de shows, cinema, teatro, na mão de menos empresas, maiores e mais poderosas. E onde há menos concorrência, há maiores preços por piores serviços, pois torna-se arriscado investir na área de entretenimento de modo geral. Todos perdem.
O segundo efeito, consequência direta do primeiro, é o mais emblemático. Se você, organizador, empresário, produtor, não pode ter ideia do quanto seus clientes lhe pagarão (se X ou metade de X), só resta a você elevar o preço original do seu serviço de modo a minimizar o risco de prejuízo. E esse aumento tende a ser algo próximo de 100%. Ou seja, a metade do dobro. Basta pegarmos como exemplo o caso da última edição do Lollapalooza para entendermos o tamanho da bizarrice: nada menos que 95% do público pagou meia-entrada.
Alguns mais ingênuos, ou talvez marxistas (são quase sinônimos) que nunca tiveram o (des)prazer de tentar tocar uma empresa de qualquer setor no Brasil, utilizam aquela velha bobagem do “anti-lucro” como argumento. Mas em respeito à inteligência do leitor do Geek Musical, vou poupá-los de fazer defesas preventivas contra falácias econômicas. Além do mais, se existe algo que é absolutamente eficaz na redução de margens de lucro de qualquer produto ou serviço (e consequentemente, de seus preços ao consumidor), é a abundância de concorrência — coisa que a própria existência da lei da meia-entrada dificulta.
Outro efeito não-desejado — e este é particularmente inconveniente para aqueles que defendem essa lei como forma de “justiça social” —, é que ela é concentradora de renda. É fato incontestável que jovens de classe média e alta estudam por muito mais tempo do que um jovem de menor renda familiar. Dessa maneira, a médio e longo prazo, aqueles que menos necessitam do suposto desconto (sim, suposto, pois pagam a metade do dobro), acabam usufruindo dele por mais tempo de vida, enquanto o jovem menos abonado (caso seja honesto e não falsifique a carteirinha) logo estará pagando a entrada inteira, pelo dobro do preço que pagaria sem a famigerada lei.
O efeito concentrador de renda também acontece no outro extremo do espectro de supostos beneficiários: os idosos. Atualmente, diversos estudos socioeconômicos apontam para um incremento da renda do indivíduo na terceira idade, nas classes A e B. Ocorre que os idosos de todas as faixas de renda estão pagando a metade do dobro. Para um idoso com situação financeira confortável, pagar por uma ilusão não sai tão caro quanto para um aposentado pelo INSS. Novamente, prejudica-se quem deveria ser ajudado. Hélio Schwartsman, colunista da Folha de S. Paulo, abordou o tema aqui e aqui.
Outra faceta bisonha dessa surreal legislação é a completa inépcia do poder público (e privado) para coibir fraudes com carteirinhas ou comprovantes estudantis falsificados. Qualquer um que esteja lendo esse texto, se já não usufruiu ilegalmente da lei da meia-entrada, com toda certeza conhece pelo menos umas cinco pessoas que o fazem. Além disso, grande parte da receita da UNE — uma entidade pela qual nem piromaníaco masoquista colocaria a mão no fogo — é fruto da emissão de carteirinhas de estudante. Tanto é que, quando as empresas passaram a ser obrigadas a aceitar um simples boleto de mensalidade como comprovante de vida estudantil, a UNE esperneou. Ora, se essa foi uma “conquista dos estudantes”, que os livrou de ter que pagar pela emissão da carteirinha, por que a entidade que se autoproclama defensora dos mesmos ficaria contrariada? Só mesmo por interesses capitalistas, algo que a UNE tanto finge abominar.
Mesmo com o pretenso aperfeiçoamento desta lei, que agora prevê uma cota limite de 40% de ingressos vendidos como meia-entrada, os efeitos nocivos não chegarão nem perto de desaparecer. Ainda que atenuados, os mesmos fatores que dificultam o planejamento e afugentam investimentos na área estarão aí. Além do mais, tal limitação não irá garantir que os que realmente necessitam do “benefício” terão acesso a ele, e sim os mais rápidos ou com melhores contatos nas empresas que comercializam as entradas (afinal, estamos no Brasil).
Se você deseja ingressos mais baratos para o seu cineminha, se deseja que jovens menos abastados também possam curtir os shows das suas bandas prediletas, se deseja que o brasileiro vá mais ao teatro, então você não deve apoiar essa legislação insólita. Você deve clamar por um livre-mercado no setor, com menores impostos, com regras claras e estáveis, livre da ingerência e do completo desrespeito às leis econômicas perpetrados pelo governo. Um lugar onde a concorrência possa florescer, aumentando a oferta, pressionando preços para baixo e a qualidade para cima.
Resumindo, a entrada é meia, mas a burrice é inteira. Não é apenas ineficaz como lei, mas também nefasta, pois prejudica quem supostamente deveria ajudar — seja diminuindo a oferta de opções culturais, seja encarecendo-as ou, pior, concentrando renda. A meia-entrada é um tiro no pé de quem já é manco. Eu diria que ela só rivaliza em ilegitimidade com a que dá àquela “máfia legalizada” do Ecad o direito de praticar os mais variados abusos, travestidos de benevolência. Mas isso já é assunto para outro texto…

Depois de 8 anos longe dos estúdios (mas não dos palcos), o Deep Purple retorna com Now What!, um título que alude aos autoquestionamentos de uma banda decana que parece já ter dado tudo o que podia ao rock e flerta com a aposentadoria. Os últimos anos não foram nada fáceis para a banda, não só pela perda de seu guru espiritual Jon Lord (morto em 2012), mas também pelo cansaço que vinha demonstrando nos palcos, suscitando debates e dividindo opiniões sobre o fim de suas atividades. Eu, Rafael Fernandes e Marcelo Soares analisamos detidamente essa questão no Tungcast especial sobre o Purple e não chegamos a uma conclusão. Mas uma boa mostra dessa fadiga está no show com orquestra gravado no festival de Montreux em 2011. Além de a banda soar apagada, Ian Gillan parecia fazer um esforço hercúleo para entregar notas que ele costumava atingir sem muito esforço. Para o fã-clube da banda, isso pode ter sido só uma noite ruim, mas para mim era um sintoma grave: quando uma das maiores vozes do rock encontra-se aos fiapos, algo precisa ser urgentemente repensado.
Debaixo dessa nuvem de desconfianças e baixas expectativas, eles resolveram seguir em frente e gravar um novo disco. Uma atitude corajosa, mas que gerou certa apreensão. E a expectativa aumenta logo na faixa de abertura. Entre acordes suaves e um clima intimista, Ian Gillan surge contemplativo, cantando pausadamente: “Time, it does not matter/ But time is all we have/ To think about, think about…” Após dois minutos de suspense, somos despertados pelo som da fúria. O velho Deep Purple renasce numa massa sonora capaz de derrubar catedrais. E o título da canção não poderia ser mais apropriado: “A Simple Song”. É o Purple fazendo o que sempre fez de melhor, usando a simplicidade para trazer o brilho individual de cada um do seus integrantes. “Blood From a Stone” é outra pérola dessa lavra. Climática ou agressiva? As duas coisas. Gillan dá o tom em meio a um teclado “jazzy”, e Steve Morse entra de sola. “Uncommon Man” possui uma daquelas introduções orquestradas e grandiosas, perfeita para shows, e poderia ter sido escolhida para abrir também o disco. Outra que certamente vai funcionar ao vivo é o primeiro single “Hell To Pay”. Com um refrão capaz de mobilizar um estádio, é séria candidata a clássico. “All The Time in The World” e “Body Line” até têm apelo radiofônico, mas não trazem grandes novidades e ficam meio deslocadas no álbum. “Vincent Price”, como sugere o título, fecha o disco como que num set de filme de terror, com atmosfera fantasmagórica e um riff pesadíssimo.
Roger Glover e Ian Paice continuam sendo o porto seguro da banda, precisos como um relógio suíço. Já Steve Morse parece mais à vontade do que nunca. Está mais melódico, e menos “fritador”, sem aquela sanha de querer se afirmar como grande virtuoso. Há de se ressaltar o dedo do produtor Bob Ezrin aí, que poliu o som da banda na medida exata, removendo os excessos e a autoindulgência. Ezrin só topou a empreitada sob a condição de a banda querer fazer um disco “sem vergonha de ser brilhante”. Além de incentivar novas abordagens, ele também trouxe de volta o conceito “ao vivo no estúdio”, que anda meio fora de moda, mas que ainda separa bandas extraordinárias de bandas ordinárias. Talvez por isso, o grande destaque do disco esteja nos teclados. Livre da sombra de Jon Lord, Don Airey perdeu o medo de arriscar. Ousou e abusou da criatividade para tirar a banda de sua zona de conforto, trazendo uma bagagem de referências musicais que vão desde Tangerine Dream (“Après Vu”), passando por Yes (“Uncommon Man” e “Weirdistan”) e chegando ao The Doors (“Blood From a Stone”). Se o Deep Purple conseguiu se libertar de algumas prisões sonoras que criou para si nos últimos anos, esse mérito é todo do produtor e do tecladista.
Outra boa notícia é que Ian Gillan soa revigorado e dá belíssimas interpretações às músicas (ouça “Out Of Hand” e entenda). E serve também como lição, porque passar quase uma década numa extenuante agenda de shows em lugares inóspitos nunca é uma boa ideia, principalmente para uma banda de sexagenários. Esperamos que tenham aprendido. Que nesta nova turnê eles sejam mais sábios na elaboração da agenda e que lancem apenas performances em alto nível, e não por obrigações contratuais ou interesses comerciais.
Ao final da audição do novo disco, me veio à cabeça uma frase dita pelo narrador da luta final do filme Rocky 6: “um velho ditado diz que todo grande campeão tem uma última grande luta guardada dentro de si”. Pois os velhinhos do Deep Purple ainda tinham um grande álbum para lançar. Vou além: Now What! é o melhor trabalho da banda desde seu retorno, no longínquo ano de 1984, com o clássico Perfect Strangers. Atenderá muito bem a ouvintes neófitos, que ainda estão tentando entender o que significa o “classic rock” (esse termo tão deturpado hoje em dia), e também não vai decepcionar ouvidos mais experimentados e exigentes. Onde quer que esteja, Jon Lord pode se orgulhar da homenagem e descansar em paz, porque aqui entre os mortais, Now What! renovou o nosso desejo de ver o Deep Purple, de novo, em mais uma turnê brasileira.

Veja também
Tungcast#051: Deep Purple (vol.1) – 1968-1976
Tungcast#052: Deep Purple (vol.2) – 1984-2012
Por que o incêndio de Santa Maria não foi o de ‘Smoke On The Water’ – por Marcelo Soares
Se você já conhece este site, sabe que somos loucos por música. E como bem disse o leitor Gustavo Sampaio: “O melhor do Geek Musical é que não há como trair o movimento”. Afinal, podemos escrever sobre tudo. Caso você não saiba direito do que se trata: somos musicólatras procurando desvendar cada detalhe do mundo musical. Sim, é uma tarefa esnobe e impossível, mas é também quase um propósito de vida. O dia a dia de um geek musical pode ser sobre achar uma ótima cantora pop, como Lianne La Havas ou tirar um dia para visitar um sebo em Miami (quando todos os “normais” estão na praia, descansando ou em busca de muambas pra família toda). Por isso, a partir de hoje, lanço uma série de posts chamada Destrinchando Hits. Sem periodicidade definida, a ideia é pegar músicas ou discos que estouraram – ou quase isso – em vendas e execuções e procurar descobrir quais fatores ajudaram a levá-los ao topo. Também serão incluídos discos e músicas que tentaram usar clichês e seguir uma moda com o objetivo de fazer sucesso – como é o caso da escolha deste post. Detalhe: as análises independem da qualidade da música em si.
Hoje, destaco a canção “Note To God”, da cantora Charice – que poderia estar em algum lugar entre One Hit Wonders e As Piores Músicas de Todos Os Tempos. Você provavelmente nem conhece essa música, mas eu juro que ela fez algum sucesso nos EUA em 2009. Vou ser sincero: essa, especificamente, estaria numa seção “Destrinchando QUASE Hits”. Mas é ideal para mostrar como existem artifícios que artistas usam para tentar pegar atalhos com o objetivo de levar uma música ao número um das paradas. Veja o vídeo e, em seguida, leia sobre as armas utilizadas para disparar um míssil pop.
As artimanhas:
Uma cantora de voz potente e técnica irrepreensível;
Uma moça que, se não é linda, está longe de ser uma aberração e se sai bem no palco;
Se possível, adicione um toque exótico – nesse caso, Charice é filipina;
A artista fazendo caras e bocas para mostrar que está “sentindo fundo” a canção;
Uma introdução que lembra um milhão de músicas, para despertar facilmente atenção;
Uma balada padrão, feita com acordes e intenções melódicas reconhecíveis e, claro, já testados em inúmeras canções;
Uma música feita por Diane Warren, uma das mais conhecidas e bem sucedidas compositoras do meio musical. Ela já emplacou inúmeros sucessos, como “I Don’t Wanna Miss a Thing”, do Aerosmith (do filme-bomba Armageddon) e “Because You Loved Me” (da detestável Celine Dion). Se não é sucesso certo, é visto como um atalho para o topo das paradas;
A música é produzida por David Foster, um dos papas do pop, que colaborou com uma lista invejável de artistas mainstream;
Uma letra emotiva, cheia de clichês, que evoca Deus e tem frases de auto-ajuda. Um trecho do refrão: “Permita que tenhamos fé para continuar / Nos dê esperença quando a esperança parece ter ido embora / Porque parece que há tanto de errado / Nessa estrada em que estamos”
Uma batida eletrônica, quase hip hop, para dar uma cara “moderna”;
Um arranjo crescente, que agrega vocais “gospel” e que tem o auge da música num dos grandes clichês de canção: o aumento de tom que dá uma dose extra de dramaticidade (nesse caso foi meio tom e ocorre por volta do minuto 3:00 no vídeo acima);
Não esqueça uma pausa para um breve solo antes do fim da música para reforçar o alcance vocal da cantora;
Uma apresentação no programa da Oprah – sempre muito assistido e comentado, um grande gerador de buzz. É importante mostrar a “emoção” da apresentadora e o “êxtase” da platéia. Tudo muito bem armado.
Depois disso, é difícil não fazer ao menos algum sucesso!
E você, geek musical, que outras artimanhas da indústria e clichês identifica nessa atuação da Charice?

Attention all planets of the solar federation: RUSH has assumed control, bitches. As preces do fãs foram ouvidas. O Rush agora faz parte do Rock n’ Roll Hall of Fame. O conclave dos rushmaníacos aconteceu no dia 18/04/2013, onde todos rezaram a missa em homenagem À Santíssima Trindade e renovaram suas esperanças. Por um bom tempo muita gente tentou desmerecer o título. Uma resposta rancorosa (e humana) diante de tamanha injustiça. O próprio Eddie Trunk passou os últimos anos cuspindo no Hall of Fame por nunca ter cogitado o Rush em suas fileiras. A verdade é que estava ficando difícil justificar tantas premiações a artistas de talento discutível (alguns medíocres) em detrimento de ícones do rock. Em seu discurso, Neil Peart deixou no ar um pouco desse sentimento irônico: “por muito tempo achamos que o Hall da Fama não era grande coisa, mas, pensando bem, até que é.”
Mas a grande questão da noite foi levantada por Dave Grohl, a quem coube a honra da indução. “Como é que o Rush foi virar uma banda cool?”, perguntou ele, retoricamente, para depois enfatizar o que todo bom rushmaníaco sentiu desde a primeira vez que ouviu a banda na vida: o Rush sempre foi cool, exatamente por não se entregar aos modismos fabricados pela mídia. “No hype, no bullshit”, disse ele. É música para músicos e apreciadores de música. Você pode não gostar, mas não tem como não respeitar. Hoje é até fácil se dizer fã da banda porque ela virou cult, mas nos tempos do glam e do grunge não havia nada mais uncool e fora de moda do que gostar de Rush (aqui fala um fã da banda desde 1991).
Mas, voltando à questão de Dave Grohl, como — ou quando — o Rush se tornou cool? Penso que não há uma data definitiva, mas acredito que essa maré virou em dois atos. O primeiro foi em 2002, com atmosfera triunfal da turnê Vapor Trails. Dizem que o ser humano só dá valor às coisas depois que as perde. Pois, após um hiato de 5 anos (onde se cogitou o fim da banda), o público percebeu o quanto o Rush era uma banda fundamental e deu a sua resposta. Se, de novo, eles não foram notícia na imprensa especializada, essa turnê mostrou que a fanbase da banda continuava ali firme e não os abandonaria nunca. Geddy Lee não se esqueceu disso em seu discurso e dedicou o prêmio “aos fãs mais apaixonados e dedicados do mundo”.

O segundo ato foi em 2010, com o lançamento do filme Rush: Beyond The Lighted Stage. Ora, estava na cara. Se a mídia sempre desdenhou o Rush, o documentaristas Sam Dunn e Scot McFadyen fizeram o trabalho que toda a imprensa não se dignou a fazer durante décadas: foram ouvir das pessoas o que essa banda representava em suas vidas. Mas não qualquer pessoa. Gente influente na cultura pop como Matt Stone e Jack Black. E principalmente, gente importante no meio musical, como Kirk Hammett, Billy Corgan, Gene Simmons, Vinnie Paul, Mike Portnoy, Les Claypool, Trent Reznor e Sebastian Bach. O resultado é que toda essa turma aí se juntou aos die hard fans anônimos aqui para dizer o óbvio ululante: o Rush é o Led Zeppelin canadense. Uma banda gigantesca em valor, que deixou uma marca indelével na história do rock, influenciando e mudando a vida de milhões de pessoas. Não por acaso, o Rush é uma das bandas mais celebradas em garagens espalhadas pelo mundo, como mostrou o filme Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man).
A frase cabal é dita por Geddy Lee no final de Beyond the Lighted Stage: “outside the mainstream, we created our own stream”. Acontece que o barulho do “rushstream” começou a ecoar tão forte no mainstream que não tinha mais como ignorar. O populismo no discurso de Dave Grohl deixou claro qual era o sentimento geral. Como um verdadeiro Simón Bolívar do rock, foi dele o grito libertário que representou essa maravilhosa pressão popular em cima dos barões da indústria e dos mascates do hype. Faltou pouco para ele dizer “vocês não entendem porra nenhuma, seus merdas. Queremos Rush!” Para amplificar o clima de anarquia, o “discurso” de Alex Lifeson mostrou que ele não é apenas um talento subestimado na guitarra, mas também na comédia.

Taylor Hawkins e Dave Grohl tocaram o clássico 2112 e não economizaram elogios aos seus (e nossos) heróis
Como autênticos gentlemen canadenses, Geddy, Alex e Neil foram à cerimônia sem qualquer sentimento revanchista e aceitaram a honra, depois de décadas de total desprendimento a tudo o que os rockstars mais amam (fama, fortuna, hype, drogas, groupies, puxa-sacos…). Em 40 anos de carreira, nunca reivindicaram nada, nunca tiveram rancor, nunca apontaram culpados pelo que deu errado e nunca se deixaram levar pelo ego. E por que? Porque eles estão acima disso. Por isso eu não só ouço esse três como músicos da banda Rush, mas também como seres humanos que têm muito a nos ensinar. A mensagem está em todo lugar: nas letras das músicas, nos livros sobre a banda, nas entrevistas que eles dão, no jeito que eles encaram a música e a vida.
Mas, apesar de mais essa lição de grandeza, não posso evitar abrir uma exceção aqui… Sim, foi uma vingança saborosa para nós, geeks musicais, ver o mundo musical inteiro se ajoelhando diante d’A Santíssima Trindade. Agora a vida pode seguir normalmente e a “intelligentsia” pode continuar torcendo o nariz para o Rush, mas a partir desta data não terão mais o direito de ignorá-los.
Veja também
Rush: quando o rock vira religião
Especial RUSH (discografia completa)
Ouça o Tungcast Rush
Beyond the Lighted Stage
Caderno 2: Rush, muito além do palco
Nem só de rock vivem os geeks musicais. Aliás, este site se propõe a falar sobre qualquer tipo de música que gostamos – deixando aos leitores a liberdade de avaliar. Destaco agora um lançamento de 2012, Is Love Big Enough? É o disco de estreia da cantora e compositora inglesa Lianne La Havas, de apenas 23 anos. Suas músicas poderiam ser enquadradas num “soft pop”, típico de Alpha FM. Mas o grande mérito dela é não fazer nem canções pop apelativas – desesperada para fazer sucesso – nem músicas rasas. Não: Lianne faz músicas simples e sutis, mas com alguns toques de sofisticação nos acordes, arranjos e execuções. Duas coisas me chamaram a atenção quando a vi. A primeira, é que ela toca guitarra – algo que sempre me agrada. A segunda é sua voz e suas interpretações seguras, limpas e cristalinas, mesmo quando toca sozinha com seu instrumento. Em tempos de exageros de auto-tune e uma enxurrada de cantores de vozes fracas, é sempre um alento quando encontramos uma Lianne La Havas.
Veja o vídeo de “Forget”:
Is Love Big Enough? é um disco bem consistente por ser o primeiro. Já ouvimos uma artista firme em suas proposições musicais. A sonoridade é orgânica, privilegiando as performances e não necessariamente a perfeição estética. Os arranjos e instrumentos ajudam a alcançar esse tipo de som: são discretos e ao mesmo tempo vivos. A abertura, com “Don’t Wake Me Up”, já mostra que não ouviremos um disco “pop chiclete”, cheio de gritaria e artimanhas de estúdio. A música começa com um belo coro, que vai conduzindo a construção da música. Quando entra a banda, a sonoridade privilegia a elegância, com bom trabalho de guitarra base. É uma boa amostra do conceito sonoro do disco. Em seguida, temos a faixa-título, que começa com um riff de guitarra, tem arranjo intrincado e um refrão para cantar junto. Já “Lost & Found”, uma das melhores do disco, fecha bem a trinca inicial do álbum. É simples, uma balada com estilo clássico do pop. O grande destaque é a interpretação de Lianne. Cheia de sutilezas e variações, vai crescendo junto com a música até seu belo auge, um pouco antes do final.
“Au Cinéma” é outra bela música guiada por um riff de guitarra, melodia insinuante e cheia da climas. “Forget” tem um refrão com sabores orientais; “Age” é uma brincadeira com orientação jazzística; “Gone” é outra balada clássica, só com piano e voz. O vídeo abaixo é uma versão ao vivo da música “Tease Me”, um dos principais destaques do disco: é muito difícil ter essa capacidade de segurança de enfrentar uma platéia apenas com voz e guitarra. Ainda mais se saindo bem de um pequeno erro e sendo uma artista iniciante. Lianne La Havas é uma boa promessa que espero que tenha uma carreira consistente e duradoura; que não se acomode pelas bajulações e vícios da indústria.
Versão ao vivo de “Tease Me”

Antes que analisemos The Next Day, é preciso entender a mensagem contida na arte da capa deste novo disco de David Bowie. Trata-se de uma remodelagem em cima da capa do clássico “Heroes”, com o título do disco de 1977 riscado e com a foto mais “lavada” e tampada por um quadrado branco. Se no passado, Bowie trabalhava sua imagem de ícone pop, agora ele a renega. Não tem feito aparições públicas para promover o álbum, não tem dado entrevistas, não embarcou no frenesi das redes sociais, nada. O recado é cristalino: trata-se de música e de mais nada. Bowie foi um dos artistas mais influentes da história do rock e do pop nos anos 70 e 80, mas andava meio sumido. Numa espécie de exílio autoimposto, ficou dez anos longe dos estúdios e dos holofotes, evitando a imprensa e os fãs. Pelo que se comentou, a pouca repercussão do disco Reality (2003) teria sido a causa da reclusão. Agora Bowie sai da escuridão disposto a trabalhar a sua não-imagem. Que assim seja…
A faixa-título abre o trabalho em ritmo pulsante e mostra um Bowie vigoroso, com um refrão “radio-friendly”. “Dirty Boys” vai numa linha mais experimental, combinando um clima jazzy a uma guitarra psicodélica. “Love Is Lost” retrabalha texturas que o cantor utilizou muito nos anos 80 e na balada “Where Are We Now?” ele surge melancólico e reflexivo. “Valentine’s Day” e “I’d Rather Be High” investem num rock mais direto e sem grandes surpresas, ao contrário de “If You Can See Me”, onde ele sai à procura do desconhecido, exagerando elementos eletrônicos, sem seguir uma métrica definida. Já “How Does The Grass Grow” entra numa onda mais dançante e “(You Will) Set The World On Fire” ataca com um rock de linhagem setentista. O melhor momento é “Boss of Me”, mostrando Bowie em sua melhor forma, com timbres classudos, cheio de nuances sonoras e um refrão com a sua marca registrada. O resultado geral é um disco bem pensado e produzido, dosando todos os elementos da carreira do músico na medida certa, sem exageros ou afetações.
Pela produção literária e cinematográfica recente, tem-se uma ideia geral do tamanho da influência que David Bowie exerceu no meio artístico nos anos 1970. No livro de Keith Richards, por exemplo, ele reclama que Mick Jagger passou essa década inteira tentando ser Bowie, quando deveria ter sido ele mesmo. No filme The Runaways – As Garotas do Rock, antes de Cherie Currie se juntar à banda, ela se apresentava dublando Bowie em números musicais. O mesmo acontecia com Boy George que, antes da fama, vivia numa Londres inundada pela imagem de Bowie, como mostra sua cinebiografia A Vida É Meu Palco (Worried About The Boy). Ninguém era maior do que Bowie nos anos 70. No pop, no rock, nos filmes, na imprensa, em tudo. A cada metamorfose, o “Camaleão do Rock” tinha um efeito imediato, impactante e definitivo nas pessoas. Todos os artistas que viveram os anos 70 – fossem eles figurões ou iniciantes – queriam ser Bowie. Guardadas as proporções (e as condições do mercado de cada época), é comparável ao fascínio que Michael Jackson causou nos anos 80.
Por todas essas razões e pelo contexto em que foi lançado, The Next Day representa muito mais do que uma grande volta de Bowie à música. Revela um artista maduro e que soube se reinventar, sem ficar remoendo o passado. Aos 66 anos, ele mostra ao público e à crítica que ainda é um artista da maior relevância e que envelheceu muito bem – indo na contramão do que faz a maioria de seus contemporâneos. Não por acaso, ele voltou ao topo das paradas sem precisar fazer um “buzz” em torno do lançamento. Quem dera Mick Jagger quisesse ser David Bowie hoje…

O pianista, arranjador e compositor Cesar Camargo Mariano é um dos principais nomes da música brasileira. É reconhecido por seu trabalho com Elis Regina, por colaborações com incontáveis artistas, seu trabalho instrumental pioneiro no uso de computadores e sintetizadores e por marcos na música brasileira – como o disco Samambaia, seu duo com o guitarrista e violonista Helio Delmiro. Assim, seu livro de memórias – Solo – é leitura altamente recomendada para amantes da música. Como bem destacou Ignácio de Loyola Brandão na apresentação: “Todos que estão pretendendo carreira leiam esse livro. Que seja adotado em conservatórios e faculdades. Porque é um hino (perdoem-me) de amor à música. Porque exige coragem, audácia, entrega, desafios“. É, de fato, um livro que afirma seu amor e respeito à música.
Cesar tem um estilo de escrita bastante direto e fluído, além de contar muito bem os “causos” da vida. Dessa forma, é difícil largar o livro – a vontade é de terminar numa só lida. É claro que ajuda conhecer um pouco sobre música brasileira, para entender as referências e nomes citados. Mas o prazer da leitura independe disso. Ele foca na sua evolução no ofício da música e nos sucessos e percalços pelo caminho de sua carreira. Escreve sobre como começou a tocar, seu desenvolvimento, o período em que Johnny Alf viveu em sua casa e conta diversas histórias sobre bastidores de shows, trabalhos e gravações. Uma das melhores é sobre as gravações, nos EUA, do clássico álbum Elis & Tom. Mas eu não vou contar – é melhor ler.
Boa parte do livro, naturalmente, é sobre o período de longa parceria – musical e afetiva – com Elis Regina. Cesar é elegante e evita polêmicas vazias, preferindo ficar apenas com os aspectos profissionais e musicais. Um fato interessante é que alguns projetos saíram do papel graças ao investimento pessoal deles, sem nenhuma promessa nem expectativa do tal “retorno sobre o investimento”. O cenário era de alto risco e feito pela crença na qualidade do trabalho. O exemplo clássico é do espetáculo Falso Brilhante, de 1975. Os músicos investiram seu tempo e dinheiro quase integralmente e, com raras exceções, sem qualquer apoio fora dos envolvidos diretamente no projeto. Depois de muitos problemas e de um começo incerto, o espetáculo foi um sucesso. Teve lotações esgotadas de terça a domingo – durante um ano e dois meses.
Em outro momento, é mostrado como o empresário de Elis, Marcos Lázaro (falecido em 2003), passou a perna em Elis, Cesar e em outros tantos músicos. Abriram um processo contra ele que não teve qualquer retorno. O resultado foi que, naquele momento, ambos ficaram com zero de dinheiro, tendo que se mudar pra São Paulo e morar de favor na edícula nos fundos de uma casa de uma amiga da amiga de Elis. Daí, Cesar começou a compor para campanhas de publicidade para poder pagar as contas, sob protestos de Elis, que achava aquilo “prostituição”. Além disso, recebeu críticas de vários músicos por essa opção. Só que, dessa forma, Cesar conseguiu sustentar a família por um bom tempo.
A leitura desse tipo de livro também é interessante para contextualizar e desmitificar algumas questões. Uma delas é de que “naquela época” música boa tocava em todos os lugares. Isso não é verdade. Não à toa, durante todo o livro, são citados pequenos bares e casas onde os músicos tocavam músicas de estilo pouco aproveitado no mainstream da época. Por exemplo, logo começo do livro, Cesar cita o Golden Ball, casa noturna que abria espaço para, em suas palavras, “quem gostava de boa música evoluída, que não tinha lugar nas rádios”. Cesar chegou à essa casa por indicação do lendário baixista Sabá, pois era onde Johnny Alf tocava.
Solo, o livro de memórias de Cesar Camargo Mariano, tem muitas boas histórias, insights e aprendizados. É vital para quem pretende seguir carreira musical. É divertido e emocionante para quem se interessa por música, em especial a brasileira. Pelos olhos de Cesar, passamos por várias épocas da música. E é curioso: alguns parágrafos acima citei a passagem em que Cesar é criticado por buscar uma saída financeira na publicidade. Ao final do livro – e conhecendo um pouco de sua carreira – fica a sensação do quanto superficial e injusta foi essa crítica. Reiterando a afirmação do começo do texto, Cesar ama e respeita a música como poucos.
Outros links geeks:
- Ave, Cesar! - texto sobre um show de Cesar Camargo Mariano escrito por Rafael Fernandes para o Digestivo Cultural.